AS FESTAS DE NATAL
1588
– Um dia de festa
Apesar
de estar trazendo, ao conhecimento de todos, alguns fragmentos históricos
referentes ao Natal no Rio de Janeiro do século XIX, não poderia deixar de
registrar a provável primeira grande festa de Natal do Rio de Janeiro
colonial.
No
dia de véspera, toda a Cidade se preparava para os festejos do dia 25 de
Dezembro de 1588. Uma população de cerca de 770 habitantes, quase na sua
totalidade urbana, ou seja, residindo nas poucas ruas abertas na Várzea da
Cidade, e alguns gatos pingados nas três ladeiras de acesso ao Alto da
Cidade, preparava-se para a grande festa, então preparada pelos Jesuítas.
Havia-se marcado para o dia de Natal a inauguração da nova Igreja de Santo
Inácio de Loyola, da Companhia de Jesus, erguida no alto da Colina que depois
se chamou do Castelo.
Igreja
dos Jesuítas
1835
- O Natal de Debret
O
magnífico artista Jean Baptiste Debret, que chegou no Rio de Janeiro em 1816,
como um dos integrantes da histórica Missão Artística Francesa, foi talvez
um dos primeiros a retratar as festas de Natal, na Cidade do Rio de Janeiro,
no ano de 1835.
Um garimpo mais dedicado poderá talvez nos revelar valiosos textos referentes às festas de Natal no Rio de Janeiro, em datas mais antigas, porém é quase certo que seja da sua autoria - com sua magnífica sensibilidade de registrar os nossos costumes – as primeiras imagens do Natal Carioca.
Título
da Gravura:
Mulata a caminho do sítio para as festas de Natal
Debret
– c.1835
As
festas do Natal e da Páscoa, sempre favorecidas no Brasil por um tempo magnífico,
constituem épocas de divertimentos tanto mais generalizados quanto provocam
mais de uma semana de interrupção no trabalho das administrações e nos negócios
do comércio; o descanso é igualmente aproveitado pela classe média e pela
classe alta, isto é, a dos diretores de repartições e dos ricos
negociantes, todos proprietários rurais e interessados, portanto, em fazer
essa excursão em visita às suas usinas de açúcar ou plantações de café,
a sete ou oito léguas da capital.
Título
da Gravura:
Presentes
de Natal
Debret
– c.1835
Dão-se
presentes no Brasil especialmente por ocasião das festas de Natal, de 1.º do
Ano e de Reis. No dia de Natal e no dia de Reis, sobretudo, são de rigor os
presentes de comestíveis, caça, aves, leitões, doces, compotas, licores,
vinhos, etc. Costuma-se renovar na mesma época a roupa dos escravos, o que
leva a conceder, em geral, gratificações aos subalternos.
Entretanto,
entre as pessoas de bem, os presentes de um gosto mais apurado são mandados
em bandejas de prata com toalhas de musselina muito finas, pregueadas com arte
e presas com laços de fitas cuja cor é sempre interpretativa, linguagem erótica
complicada pela adição engenhosamente combinada de algumas flores inocentes.
O
desenho representa a entrega de dois presentes de importância diversa: o
primeiro, carregado por três negros entrando por um portão, traz a carta de
congratulações entre as garrafas de vinho do Porto; a apresentação do
segundo, mais modesto e talvez galante, é confiada à inteligência da negra
encarregada de entrega-lo num humilde rés-do-chão.
1844
- Um Natal inesquecível
Mesmo
que sejam poucos os relatos da celebração do natalício de Jesus, em tempos
remotos na Cidade do Rio de Janeiro, fora os fragmentos dos costumes do ano de
1856 (adiante), é certo que alguns poucos anos antes, em 1844, os habitantes
do Rio de Janeiro, uns aterrorizados, quiçá pensando ser o fim do mundo, e
outros, os mais devotos, imbuídos de infinita alegria, passaram o mais célebre
Natal desde a fundação da Cidade do Rio de Janeiro, no longínquo ano de
1565.
Em
25 de Dezembro de 1844, sonho e realidade se misturaram, quando no céu do Rio
de Janeiro, dando vida aos poucos presépios montados em alguns lares mais
privilegiados, surgiu a Estrela Guia – deu-se à aparição de um cometa,
visível por duas longas horas. Trouxe luz para a Corte de D. Pedro II, em uma
cidade em que a iluminação ainda dependia dos velhos candeeiros, acesos
ainda pelo azeite de peixe.
1856
– O Natal: fragmentos históricos
No
ano de 1856, a população do Brasil estava estimada
em cerca de 7.677.800 habitantes. A população da Cidade do Rio de Janeiro
era de aproximadamente 270 mil habitantes, dos quais cerca de 208 mil moravam
nas freguesias urbanas.
Já
nesse tempo festejavam com pompa e alegria a chegada do Natal e, naquela época
as
festas duravam duas semanas, de 24 de Dezembro a 6 de Janeiro, e o dia 7,
estava fadado sempre a ser o dia mais triste da vida das crianças.
Muitos dias antes do dia de Natal era grande a azafama; nesta boa cidade; era o tempo de mandar as festas aos parentes e amigos, e delles receber as êtrennes, como se dizia em fins do século XIX em linguagem alambicada.
Viam-se
grandes bandejas de doces, carregadas por pretos e pretas, cestos de
gallinhas, leitões, atroando os ares com seus grunhidos, perús amarrados com
fitas encarnadas ou verdes, compoteiras de doces cobertas por guardanapos
rendados.
Os
escravos davam o cavaquinho para ser os portadores de festas.
pois era certa a gorgeta mais ou menos gorda para o mata
bicho.
Passados
quarenta anos, em fins do século XIX, mais precisamente em 1896, os costumes
já haviam mudado, e as festas tornaram-se mais baratas:
Cifra-se
na monomania das folhinhas, dos chromos e dos blocks,
que se vendem nas lojas de papel, ou nos almanaques de anecdotas,
vindos de França (os quaes, podem ser encontrados no Fauchon), nos marrons
glacês, o sonho dos anjinhos de procissão, as nossas antigas amêndoas,
já não têm cotação na praça.
Eis-nos
em plena noite da missa do gallo. Ia
uma balburdia pelas casas, havia uma inferneira pelas cozinhas, onde se
preparava a ceia ou consoada para depois da missa e parte do jantar do grande
dia.
É
sabido pelos antigos, o que talvez ainda aconteça nos dias de hoje, 150 anos
depois, de que quem menos se divertia eram os donos da casa, sempre cuidadosos
para que não houvesse faltas, e gente da cozinha; eis porque nas aspirações
de algumas crianças - segundo escreveu um antigo cronista em 1896 - de serem
frades, pedestres, sacristãos, pedintes de almas; mas nunca serem
cozinheiros.
Que
havia porco em casa sabia-o toda a vizinhança pelos protestos da victima
prestes a morrer com uma certeira facada; jorrava o sangue cuidadosamente
guardado para diversas petisqueiras.
Carregadores
de porcos – c.1820 - Debret
As
gallinhas mostravam~se tristes e abatidas, prevendo o proximo fim, taes quaes
candidatos derrotados em eleições.

Galinha
para o Natal
Debret
– c.1820
O
perú, ao qual se tinha dado cachaça para tornar a carne mais macia,
desconfiado de tanta esmola, preparava-se
para o sacrificio, e bebedo como estava não devia sentir muito a passagem
desta para outra vida.
AlIi
a preta de confiança tractava do peixe, lá os moleques ralavam o côcco para
o doce, negrinhas areiavam os talheres ou punham palitos no paliteiro. Aqui um
preto velho aposentado depennava as galIinhas depois de um banho de agua
fervendo, e mais além a mulata velha tirava os ossos ás mãos de vacca para
fazer o apetitoso mocotó recheiado com ovos e farinha de trigo ( um
verdadeiro quitute, desterrado
dos cardapios ou menus dos
nossos burguezes jantares).
Nessa noite não se pregava olho. Das 10 horas em deante, depois do Aragão, começavam a repicar os sinos das egrejas, de maneira a ensurdecer.
Os
sinos das igrejas do Rio de Janeiro, não só neste século XIX, mas nos
anteriores sempre tiveram participação fundamental nos acontecimentos da
cidade e na vida particular de cada indivíduo até meados do Século XIX,
como bem lembro Sarthou.
Por
ocasião das festas de Natal, nem mesmo o Toque do Aragão se fazia ser
respeitado e, pela noite adentro, as algazarras se espalhavam pela cidade.
Aragão foi o apelido dado a um dos mais populares sinos da Cidade
Maravilhosa, instalado na Igreja de São Francisco de Paula, com 1m.04 de diâmetro,
pesando 600 quilos, e fabricado no Rio de Janeiro, na oficina da rua de São
Lourenço 44.
O
nome se espalhou por aclamação popular, partindo de algum crítico gozador,
pois trazia a memória do Desembargador Francisco Teixeira de Aragão, então
Intendente de Polícia, que resolveu criar o toque de recolher, por edital de
03.01.1825. Às dez horas da noite no verão e às nove horas no inverno, ao
bater insistente o sino da Igreja de São Francisco de Paula, por meia hora
sem interrupção, todos os cariocas eram obrigados a se recolher. Nenhuma
casa comercial podia funcionar.

Igreja de São Francisco de Paula
Grande
festa no largo de São Francisco, em 1826
–
um ano após A criação do Toque de Aragão.
Artigo
6.º do Toque de Aragão
Fica proibido, depois do toque do sino, estar parado, sem motivo manifesto, nas esquinas, praças e ruas públicas, dar assobios ou outro qualquer sinal. Essa proibição se estende aos negros e homens de cor antes dessa hora, mas depois que anoitecer.
O
Toque de Aragão foi praticado durante cinqüenta e três anos, sendo
suprimido em 1878.
Assim,
naquele Natal de 1856, e nos que lhe sucederam, nem mesmo o Toque de Aragão
era o suficiente para afastar o povo de suas festas, da algazarra, das
buzinas, das rodas de música, e outras tantas manifestações. Assim, depois
das badaladas do Sino do Aragão, avisando a chegada do ponteiro de minutos,
na casa dos 12, enquanto o das horas apontava com exatidão para o número
dez, em toda a cidade, como se fosse um entoar de gozação, repicavam os
sinos de todas as igrejas. Era dia de Natal.
As
ruas iam-se pouco a pouco enchendo, e ás portas dos templos desde as 9 horas
já havia devotos para pilhar logar, baseados no direito do primi
capientis.
Os capadocios afinavam os cavaquinhos e violões. Os gaiatos atravessavam as ruas arremedando o cócôrocô dos galIos, e, de quando em vez, foguetes no ar annunciavam que estava perto a hora solenne.

As egrejas mais concorridas eram S. Francisco de Paula, Misericordia, S. José, Carmo, a Cathedral, Sancto Antonio, São Bento e Ajuda, e em tempos anteriores a capelIa do Menino Deus, em MatacavalIos, cuja historia poetica é contada em muitas paginas pelo Balthazar Lisboa .







As
sete primeiras igrejas citadas acima, na ordem (fora a Ajuda).
A não ser algum rôlo de capoeiras, algumas cabeças quebradas, algumas navalhadas, o resto corria bem, e acabada a missa cada qual se recolhia á casa para comer, descançar e esperar o dia 25. Muitas vezes havia danças e cantatas, que; se prolongavam até de madrugada.

Os
Capoeiras
Tocador
de Berimbau
Debret
– c.1820
Não
há uma descrição sobre a forma de ornamentação das ruas da Cidade,
naquele ano de 1856; somente se fala da algazarra, das rodas musicais e do
foguetório. No entanto, ao que parece, não existisse tal costume de se
ornamentar os logradouros públicos e, se houvesse, certamente teriam
retratado tal manifestação artística os grandes artistas da época, Debret,
Ender ou Rugendas. Parece que tal costume somente aconteceu cerca de cem anos
depois, em 1955, quando a Cidade do Rio de Janeiro entra para a história como
uma das primeiras no mundo a criar a tradição do que chamavam de Natal de
Rua,
o que nada mudou com relação aos costumes atuais.
Alexandre
Campos ao falar dos Natais de Rua, de cinqüenta atrás, assim define:
Defini-se
como Natal de rua, a ornamentação colorida com lanternas, lâmpadas,
enfeites típicos, das ruas, praças, casas comerciais, fachadas das residências
particulares, por ocasião de Festa Magna da Cristandade. O Rio de Janeiro,
foi a segunda cidade do mundo a ter um Natal de Rua, por volta de 1955.
É
originário de São Paulo, onde foi criado pelo Barão
Carlos Massei, que desde 1935, começou sozinho, uma campanha junto a
particulares e autoridades, para que os logradouros públicos naquela cidade,
fossem transformados em grandes presépios coletivos, e que se tornou
realidade em 1953. Hoje, tal festa é universal.
O
dia 25 de Dezembro
(voltando
a 1856)
De manhã, abriam-se de par em par as portas dos oratorios, enriquecidos de obras de primorosa talha, onde se via deitado entre folhas verdes o menino Jesús, cercado de jarras de flôres e alIumiado por velas de cêra postas em castiçaes de prata, de vidro ou latão. Tudo isso era de um effeito magico.
Ceia,
Melancia, e Família.
Era
um sacrificio ser chamado para comer melancia, não dessas rachiticas,
vendidas pelos ilhéos da Penha, mas verdadeiras melancias capazes de
refrescar um batalhão e que custavam a modica quantia de quinhentos réis !
Ao jantar reuniam-se os parentes e adherentes, vinham de fóra e de longe os
filhos e filhas casadas, todos se junctavam nesse dia solenne, em que se
apertavam os doces laços da familia, essa cellula
da vida social. Compareciam
tambem os compadres e comadres, os amigos da peito e até á mesa dos patrões
eram admitidos os caixeiros, que neste dia gosavam das honras de filhos da
casa.

Uma
ceia retratada por Debret em 1835
Contados! Só saiam tres vezes por anno: no Natal, na Gloria e na Paschoa ! Eram taes os costumes do tempo, em que os patrões, para tomar fresco no Passeio ou no largo do Paço. nunca levavam chapéo, para que os caixeiros não soubessem si elles ( patrões) estava perto ou longe !
Bons
tempos em que a jaqueta era de rigor, e a gravata só usada por quem já tinha
alguma cousa de seu. Pouco trabalhavam nestes dias os barbeiros. não por fôrça
de postura municipal, mas por não terem tempo de ir á cara dos freguezes.
Barbeiro
– 1835 - Debret
Iam tocar nas portas das egrejas em palanques ou coretos preparados.
As bandas militares nunca saiam para esse fim; era contra a disciplina. Quem não conhecia a musica dos barbeiros, aggremiação digna de um poema, e que desappareceu com o progredir da civilização ? Existiram dous typos dessa raça de heróes, dous ultimos Abencerrages que viviam alli na rua do Carmo, pacata e silenciosamente, contando aos posteros as suas brilhaturas não só na Musica. como nas sangrias e applicação de sanguesugas .

Arquitetura
das Casas na Rua do Carmo em 1874
Presépios
E a visita aos presepes ? Os mais afamados eram os do Convento da Ajuda, o da ladeira de Sancto Antonio. tão bem descriptos ambos no romance de Macedo As Velhas de mantilha, e o do conego Philippe, na ladeira da Madre de Deus. Este teve a honra de ser visitado pelo rei d. João, o qual, como se sabe, gostava muito de festas de egreja e era inimigo de theatros; obrigado a ir a espectaculos. dormia a bom dormir e, de quando em vez, acordava estremunhado, perguntando aos cortezãos : já se casaram estes bebedos ?
Cesse agora o que a antiga Musa canta, para fallar do presepe do Barros, alli na rua dos Ciganos, presepe que foi a summa da arte, o Eldorado, o cumulo de tudo quanto havia de sublime, peripatetico e esplendoroso.
Imaginae em uma pequena loja de carpinteiro a cidade de Belém, onde nasceu o Christo, transformada em cidade moderna, construida em amphitheatro. com casas de janellas de grades de ferro, com vidraças de cutello, egrejas com torres e sinos, saloios e saloias dansando, gatos, cachorros, coelhos, pescadores, caboclos, jardineiros, toureiros hispanhóes, anjinhos de barriga para baixo, pendurados no tecto recamado de estrellas de papelão dourado. O sol e a lua ao mesmo tempo no horizonte, e no meio do firmamento uma grande estrella d'alva, cujos raios guiavam caravanas de camelos, que faziam parte da comitiva dos tres reis magos, que pareciam vir descendo com ar serio e magestoso de uma montanha collocada no fim do panorama. Tudo isso allumiado por velas que saiam de castiçaes pregados no meio das ruas, onde existiam lampeões de gaz só para inglez ver.
Havia tambem no centro um tanque pequeno d'onde jorrava a agua de um repuxo e onde peixinhos vermelhos saracoteavam de um lado ,para outro .
Via-se em uma lapinha deitado o menino Jesús, tendo perto de si S. José; Nossa Senhora e S. João Baptista, bois, cavallos, porcos, sapinhos e até leões - uma verdadeira arca de Noé. As pretas lá de casa diziam que aquilo era a cidade do Rio de Janeiro no tempo em que Christo andou pelo mundo; aquellas torres, umas eram da Candelaria, esta a de Sancto Ignacio do Castello, e aquella outra a da Penha; a montanha e Corcovado, e o lago era o do Passeio Publico !
Tinha o Barros um official de nome Paulino.
O dia seguinte do Natal era o dia das indigestões, e os boticarios não tinham mãos a medir vendendo camomilla, oleo de ricino e noz vomica .
A meninada ficava de cama e de dieta um ou dous dias, findos os quaes estava-se prompto para a patuscada. Continuavam as cantatas ou trovadores da rua; mais tarde apparecia o bumba meu boi, as dansas dos pastores e entrava-se no Anno Bom e Festa dos Reis .
Dos
trovadores desse tempo conheci o Anselmo, que ao som do violão era capaz de
cantar um dia inteiro modinhas, todas differentes. São de seu repertorio: A
saudade roxa, mimosa flôr -Qual quebra a vaga do mar - A gentil Carolina -
Dizem que vejo e não vejo - Si os
meus suspiros pudessem - Mandei um terno suspiro - Os mandamentos da lei do
amor, etc ., etc ., etc .
Havia um grupo de artistas que eram insignes nas serenatas desse tempo. Era seu chefe o Goiano. Certa noite para poderem sair era preciso arranjar quem tocasse o bombo. Por acaso appareceu um estudante de Medicina, membro honorario do tal grupo. Acceitou, com a condição de não entrar em casa conhecida.
Apezar de nunca se ter visto em taes apuros o nosso futuro doutor ia indo menos mal; percorreu o grupo de foliões várias ruas e elle, meio occulto entre os companheiros, obedecia á batuta do mestre; entraram e tocaram em várias casas, sendo muito applaudidos.
Ao subir, porém, o farrancho as escadas de um sobrado, na rua Larga de S. Joaquim, oh horror! estava sentado no sofá da sala, rodeado por muitas moças, um professor da Eschola de Medicina !
Tirar a corrêa do pescoço, atirar com o zabumba e fugir pela escada como cão damnado, vendendo azeite ás canadas, foi obra de um minuto. Na rua um policia quiz agarra-lo. Para livrar-se embarafustou por uma casa, no fundo da qual, em um quarto, estava uma velha. tomando banho! O infeliz via por toda a parte o bombo transformado em bomba, e uma reprovação certa, si tivesse sido reconhecido.
E tinha razão. Um seu contemporaneo havia sido reprovado, porque tocava rabeca em novenas, para poder estudar; outro, porque um lente em um theatro o tinha visto vestido de roupa de côr; outro, porque ao avistar o professor não tirou o cigarro da bocca. Cachimbar. como dizia o velho Jobim, era o maior de todos os delictos, e quando se queria chamar um moço de máu e de perverso «até dizem que já fuma» era a ultima, era a suprema injuria.
A
Noite de Natal no Rio de Janeiro
-
1894 -
No
ano de 1894, cerca de 40 anos depois dos principais acontecimentos descritos
acima, um escritor dedicou uma das suas valiosas crônicas à Noite de Natal
no Rio de Janeiro, cujo texto, transcrevo a seguir:
A
noite de Natal no Rio de Janeiro era a festa das crianças e das mais; dos
venturosos da sorte e do escravo, que já tinha quem lhe recolhesse as lágrimas
afflictas e os gemidos sem eco na treva das senzalas.
A
família, preparada para os júbilos da igreja, associava-se pela abstração
às venturas da Virgem Mâi, no estabulo de Bethlem, quando, embalando o seu
recém-nascido, recebia as oblações dos pastores em tropa, que acudiam das
aldeias vizinhas.
N´esta
capital e nos subúrbios as festas do Natal eram amplas e características. É
que nem sonhávamos de pedir ao estrangeiro – no paiz das florestas – a
tola e rachitica arvore do Natal, para symbolizar as galas de que se revestirá
a natureza no nascimento d´Aquelle que vinha em nome de Deos.
O
acontecimento reinava por toda a parte; ricos presentes destinavam-se com
prodigalidade; os escravos, de roupa nova, cumpriam alegre tarefas; os
presepes armados; as casas illuminadas no interior; os móveis bem
espanados, os vestidos da seda estendidos sobre as camas, annunciavam a próxima
festança, que comelava logo ao escurecer.
A
missa do gallo punha em revolução
casas inteiras; velhas, moças, meninos e rapazes, ninguém dormia, ninguém
os occupava com outra cousa qualquer.
Certa
parte da população, porém, preferia armar o throno do Menino, passar a
noitada entre cantigas e dansas, visitar o presepe do Barros.
Pompas
religiosas
nos
conventos as pompas religiosas que iriam ter lugar, faziam sahir fora dos hábitos
regulares as communidades, os vigários, o pessoal subalterno do culto. As
capellas, com uma escadaria de velas de cera, deviam projectar grande luz no
ambiente do altar-mór, todo enfeitado e acceso, em que era de rigor
colocar-se o Deos-Menino, deitado e nusinho, em um leito de ouro e de pedras
finas.
Vozes
de animais
E
uma orchestra de repiques de sinos retinia nos ares feridos pelos gritos das
multidões em grupos, que imitavam nas ruas o canto do gallo, a voz dos
animaes, que, segundo a lenda, exhultavam de prazer com o nascimento do
Messias.
A
noite de Natal, que o era também de liberdade e de innocentes prazeres, teve
no Rio de Janeiro uma característica firme, de que conservam memória
personagens authenticas.
A
música de véspera
A
partir das 8 da noite de 25, quando as estrellas erguiam nas alturas as suas lâmpadas
de diamantes, um rumor vago, indefinido e as vezes harmoniosos, circulava na
cidade. Grupos precedidos por tocadores de violão e cantadores de modinhas
seguiam à aventura, isolando-se em pontos variados o som de uma frauta que
fazia a parte cantante, de um cavaquinho estridente, de uma guitarra afinada e
de plangentes arpejos.
Os
Músicos
Ao
longo das ruas debruçadas às janelas abertas das rotulas, muitas pessoas
avistavam-se, de espaço a espaço, apreciando as dansas em casa das famílias
da classe proletária, ou palmejando no fim dos lundus e modinhas cantados
aqui e além, pelo pardo Anselmo, o Alves, o Cunha, o Juca Cego, o Dr.
Clarimundo, o Leandro, o crioulo Trovador, o Zé Menino e trinta outros
menestréis populares.
Nos
intervallos, os convidados iam para dentro, geralmente aos pares, os
cavalheiros trocando amabilidades com as suas damas, ageitando a luva de
pelica, rindo dos incidentes de uma quadrilha.

Grupo
de músicos escravos – c.1820 - Debret
Lá,
a grande ceia estava preparada, logo que cada um tomava assento às mesas
extensas e, por vezes emendadas.
No
máxima totalidade, as reuniões em casas térreas eram entre gente de casta,
isto é, de homens e mulheres de cor, comparecendo um ou outro portuguez,
personagem infallivel nos dias risonhos ou nefastos dos brasileiros em
qualquer condições.
O
ritual do blinde
E
as hurrahs ferviam, as saúdes trocavam-se, e o pardo ou o crioulo que
presidia a mesa, notava-se de fora, encasacado e de pé, orando, gesticulando,
levantando o braço e suspendendo acima da fronte a taça espumante do
champagne.
Um
Canto de Galo
N´isso,
os magotes de povo, os escravos que obtinham licença para divertir-se
sulcavam os caminhos, amotinados, imitando o cacarejar do capão do terreiro,
o canto prolongado do gallo musico.
Capela
do Menino Deus
Na
rua de Matacavallos, a capella do Menino Deus agremiava innumeras famílias
que, desde as Ave-Maria, a freqüentavam.

Capela
do Menino Deus em dia de festa
Emquanto,
já por cerca das dez ou onze horas, essas scenas se passavam, levas de gente
seguiam pelo largo do Rocio, em direitura à rua dos Ciganos, que se ostentava
brilhante, atravessada por cordas enfiadas de bandeiras, illuminada, coberta
de folhas, e animada pela música que ticava em um coreto.
Gyrandolas
animadas subiam ao ar, e o povo, com chapéos e bengalas, desviavam as flechas
que sibilavam cahindo.
O
Presépio dos Barros
Na
rua dos Ciganos, tinha a sua grande marcenaria o velho portuguez Francisco José
de Barros, marcenaria que occupava as cinco portas de sua vasta casa
abarracada.
Nas
proximidades do Natal, o estabelecimento desapparecia, por isso que o presepe
instalava-se na metade anterior da officina.
Durante
trinta annos (desde cerca de 1860) o velho Barros armava o seu tradicional
presepe, que atrahia toda a cidade e subúrbios.
O espaçoso salão, para o qual entrava-se por uma única porta lateral, era decorado sem elegancias, mas com originalidade; dos tectos viam-se anjinhos pendurados de barriga para baixo, a um lado uma especie de tribuna em que cantavam as filhas do proprietário os versos do Natal e Reis; o lugar destinado á orchestra conhecia-se por uma pequena estante de pinho, sobre a qual havia papeis de musica e velas accesas de carnaúba em rasos castiçaes de folha de Flandres.
O presepe, que formava o fundo, de um lado a outro, e que subia até o teto, era constituído por peças que se desarticulavam à vontade, sendo as figuras, as casas, os repuchos, as fortalezas, a historia toda feita pelo Barros, o exclusivo santeiro, marceneiro, pintor e architecto do seu presepe de variadissimas quinquilharias.
Dizem que o motivo que levara o bom do velho a festejar com a lapinha o nascimento do Deus-Menino, fora um voto, uma promessa.
Mas, quanto explendor ! quanto talento de artistas aproveitando n’aquella obra que pasmava as crianças, entretinha devotamente a população inteira, causava assombro aos entendidos no assumpto !
Nas noites de Natal, Reis e Anno Bom a rua dos Ciganos não podia ser mais bella. As pompas exteriores reproduziam-se, as meninas cantavam, a música tocava, e n’essas noites e aos domingos o presepe ficava exposto ao publico, das 6 horas á meia noite.
E quem não se lembra do Barros ! daquelle velho baixo, de barba raspada e sem gravata que, vestido de brim alvo e engommado, obsequiava a todos com a mesma meiguice, com o mesmo sorriso, feliz e innocente!...
E aquelle operario obscuro tinha um ideal; aquelle portuguez de outros tempos amava a este país e às suas instituições! à excepçao das noites em que o seu presepe só recebia a visita de escolhidas famílias e do público, as demais elle reservava a um benefício, cujo producto entrava para a casa da Imperial Sociedade Auxiliadora das Artes Mecanicas e Liberaes, à qual legou por sua morte um valioso predio.
Na vespera de Reis os ranchos iam cantar naquelle presepe as suas cantatas diante do Menino, deitado em um berço de palhas, junto à Santa Virgem e São José, acercado de pastores e dos reis magos, vindos do Oriente.
E o povo atopetava a rua dos Ciganos, e duas phrases se escutavam soltas, aqui, além, mais longe: - Missa do gallo, e presépe do Barros.
A
Missa da Meia Noite
E
um repique de sinos formava um concerto aéreo como um coro de anjos,
annunciando a missa da meia-noite...
As
sedas farfalhavam ao leve passo das moças bonitas; o Menino-Deos, em sua
peanha, com seu cajadinho de ouro, prendendo um carneirinho, que pastava no
montículo, avultava de um móvel de jacarandá; e as crianças, as senhoras,
as moças, as crias, pomptas para a Igreja, murmuravam impacientes pela demora
dos mais velhos...
Muitas
vezes, de repente, sahindo do fundo de uma cama, como se resurgira de um túmulo,
um indivíduo magro, coberto de cans, recalcando no peito uma tosse héctica,
adiantava-se tremulo, abria o abraço, passeiava o olhar por sobre a imagem,
e, risonho e feliz, contemplava por instantes a família reunida, que era
ditosa e tinha fé, no maior dia da christandade !
Esse
velho era um pai ou um avô, a quem a religião emprestara n´aquelle instante
a saúde perdida e o vigor dos dias antigo.
E
partiam...
Os
alaridos acordavam os échos, as aves nocturnas libravam-se às tontas
tangidas das torres, as famílias desfilavam com o seu cortejo de negrinhas e
muleques; os adros dos conventos,das parochias, dos sumptuosos templos como o
Carmo, São Francisco de Paula, Candelária e Sacramento ficavam compactos de
fiéis, de devotos das missas cantadas.

Missa
na Igreja de São Sebastião
(*1583
- +1922)
Na
Capella Imperial, apenas batia meia-noite, a multidão quase que não se podia
mexer no corpo da igreja; os musicos appareciam no coro, afinavam os
instrumentos; as sentinellas, postadas em determinados logares, descançavam a
espingarda, cujas bayonetas espelhavam aos jorros da luz.
Então,
as ondas do povo afastavam-se à direita e à esquerda, offerecendo passagem
ao santo bispo, que ia officiar a missa. Vestido de capa de um tecido de ouro,
vergado pelos annos, com a fronte coroada de mitra, sustendo o báculo, o príncipe
da igreja caminhava lento, precedido de monsenhores e cônegos, de
thuriferarios e acolytos, de sarcedotes e diáconos, de cyrios acessos e
cantando sagrados cantigos.
E
a missa de Natal celebrava-se magestosa, porque nascera o Senhor, que seria
chamado o Admirável.
Nas
diversas Igrejas, não obstante serem as pompas litúrgicas menos grandiosas,
não deixava de ser subido o piedoso fervor.
UM
FUTURO DIFÍCIL DE ACREDITAR
1905-2005
Há
exatamente 100 anos, em dezembro de 1905, Souza Bandeira resolveu escrever as
suas “videntes impressões”, nada positivas, de como seria o Natal do Ano
de 2005, e que nós vamos celebrar dentro de dois dias.
Não
posso deixar de me encantar com esta previsão, não pelo conteúdo do texto,
ou pela falta de esperança no futuro das crianças do Brasil, mas no fato de
um cronista, Souza Bandeira, em 1905, deixar-nos as suas impressões do que
seria o nosso Natal de hoje. Vamos a crônica:
O
Natal de 2005
Que
será o Natal de hoje a cem annos ?
Nem
Wells, nem Bellamy, nem Allatole France, nem os outros cultores, de menor
peso, desse genero de sport metaphysiço que se compraz em desvendar o futuro
lembraram-se ainda, que me conste, de idear o que será a festa do
Menino-Deus, quando houver passado um seculo sobre as nossas tristesas, as
nossas alegrias, as nossas esperanças, os nossos dissabores de hoje.
Persistirá
ainda, no seculo posterior ao do radium, o costume de celebrar annualmente o
suave mysterio do Natal, com o seu cortejo de lendas consoladoras que se
espalham docemente sobre a humanidade, fazendo como que uma tregua nas lutas
quotidianas para unir as opiniões as mais desencontradas, afim de contemplar
a mais bella creação que até hoje tem produsido as religiões ?
Ou,
chegada a humanidade ao estado positivo que imaginou Augusto Comte, banidos da
cogitação humana todas as preocupações theologicas ou metaphysicas,
ninguem mais aceitará senão o que for experimentado ou demonstrado, e não
haverá mais illusões de especie alguma, sobre qualquer dos campos da cultura
humana?
Si
quisermos acceitar como formulada civilisação futura a uniformisação dos
costumes dos povos, segundo o typo dominante na chamada civilisação
occidental, a consequencia logica é que as velhas tradicções locaes que
acentuaram a individualidade de cada povo, hão de fatalmente desapparecer,
para ceder o logar ao typo vago, incolor e apagado que constitue o homem
civilisado de hoje, disfarçando o seu scepticismo com o sorriso de uma ironia
amavel, sem as ingenuidades que fazem a felicidade dos povos, sem os arrancos
de fervido enthusiasmo que constituem a verdadeira dynamica das sociedades.
Quando
a sciencia não tiver mais segredos para o povo, quando não houver mais
dlfferença. entre o homem culto e o homem ignorante, e forem banidos da
imaginação popular os fantasmas que actualmente tanto aterram e deliciam os
povos, a que lendas recorrerá a humanidade para suavisar, os poucos instantes
da vida, como o actual, em que o espirito, fôrro ao ramerrão da vida
quotidiana, foge pelo espaço fóra procurando uma illusão em que repouse dos
dissabores do mundo conhecido ?
Quando
vejo as creanças de hoje, confiantes na fé que nós não temos mais, cheias
de illusões para nós de todo perdidas, aferradas ás crenças que nós não
temos a coragem de lhes tirar do espirito, pergunto a mim mesmo si os meninos
actuaes, quando chegarem á virilidade terão o heroismo de fechar os olhos a
seducção da lenda, e educarão desde logo os seus filhos inteiramente
emancipados das suaves creações que nos enlevaram a infancia e ainda hoje
embalam a dos nossos filhos.
Quando
nós, os livres pensadores de hoje; volvemos os olhos para os nossos
longinquos primeiros annos, vemos um lar tranquillo, uma figura de mãe cheia
de bondade guiando os nossos primeiros passos da vida, e a familia, possuida
da mais suave uncção, celebrando amorosamente a festa cujos vestigios nos
ficaram para todo o sempre gravados no coração, a despeito de todas as negações
que conhecimentos posteriores nos implantaram no espirito. Revendo nos filhos
estes mesmos suaves sentimentos, nós temos que transigir com as exigencias de
uma fé que já não nos domina, e, pela mais sublime das hypocrisias
fingimos, acreditar nas lendas a que sómente podemos oppor a mais crúel das
realidades.
As
creanças que hoje nascem podem pois, graças á nossa tolerancia, conservar o
conjuncto de illusões que nos embalaram a meninice. Terão porém, a mesma
força de vontade que nós para transmittir as futuras gerações o mesmo
ponto de vista ? Ou, chegadas á idade madura, perceberão que atraz dos
nossos condencendentes sorrisos já se advinhava o rictus amargo da descrença
?
Imaginemos,
um momento, que a sciencia e a civilisação hajam nivellado todos os
espiritos, e as creanças logo com as primeiras letras tenham recebido as
bases de uma concepção scientifica do Universo.
Que
esperarão ellas achar nos sapatinhos em que o velho Natal tinha o costume de
collocar os presentes?
Em
primeiro logar cabe observar que, nos paizes em que as creanças poem os
sapatos perto da lareira, tal não será mais possível. pois o aquecimento
das casas pela electricidade ou por outros
meios
hoje de nós desconhecidos, dispensará completamente a chaminé. Si a noção
de propriedade individual houver desapparecido do mundo, creança nenhuma
esperará receber um presente, pois saberá então que tudo pertence a
communidade. E, despovoada a amplidão das entidades mythologicas que ainda
existem para as creanças de hoje, as
que vierem daqui a cem annos hão de saber que tudo está sujeito á
fatalidade das leis cosmicas, que nenhum phenomeno tem causas sobrenaturaes, e
que não é possivel andarem os anjos, pela calada da noite a encher de doces
e brinquedos os sapatinhos das creanças adormecidas.
Nascidos
na época em que tudo estará calculado mathematicamente habituados a achar a
incognita de todas as equações, os meninos de então serão iguaes em
penetração aos homens de hoje, e olharão impavidos a immensidade severa,
despida emfim das sombras que hoje tanto nos apavóram. Sonhos,
crenças, lendas... vãs futilidades que o seculo vinte terá acabado de
destruir.
O
Estado reduzido o apuro de uma machina bem lubrificada, a industria e o
capital occupando o seu logar mathematico na entrosagem da vida nacional, a
precisão geometrica regulando todas as manifestações do pensamento humano,
tudo previsto, tudo calculado, tudo regularisado, que logar restará para a
expansão das doces illusões em que hoje ainda nos comprazemos ?
Si
forem estes os sentimentos que dominarem o mundo de então, que se fará por
occasião do Natal?
Pobres
creanças de 2005 ! Como eu voz lamento!
Rio
de Janeiro, 1905 - SOUZA BANDEIRA.
UM
SONETO DE NATAL
1905
Depois
desta tempestade, do mundo tenebroso que se esperava para as nossas crianças
do ano de 2005, fecho com um soneto dedicado ao Natal, escrito pelo cronista
Luiz Edmundo, há exatamente 100 anos, em 1905, devidamente enquadrada (veja
após o soneto) em uma típica ilustração daquele princípio do século XX.
Cala-se
o mundo, há um luar de mysthicos palores.
O
vento lembra uma harpa a tocar de surdina
Brilha
pela extensão do céo da Palestina
N´um
prenuncio feliz, a estrella dos pastores.
A
vida acorda e vem do cálice das flores
A
alma do homem que sente um fulgor que o fascina
A
ovelha bala, o boi muge, o pastor se inclina,
Há
um balsamo por tudo a amenisar as dores.
Jesus
nasceu; a fé que os corações ampara
Desce
às almas buscando os íntimos refolhos
Como
os raios do sol n´uma lagoa clara.
Maria
porque vê Jesus pequeno e langue
Poe
um riso feliz na doçura dos olhos
Que
hão de chorar, depois, as lágrimas de sangue...
Luiz Edmundo – 1905
------------------------------------------------------------------------