O ESCUDO OVADO 

                                                                                                                                               Por Jeni Dreyfus

                                                                                                                                          

m concurso realizado há pouco, no qual apresentei uma monografia sobre heráldica e genealogia, fui contestada por um dos examinadores na parte referente à forma dos escudos e particularmente na do escudo oval.Não me satisfazendo com os argumentos apresentados pelo ilustre membro da banca, resolvi curiosamente pesquisar em torno do assunto, chegando à feliz conclusão de que não estava laborando em erro quando afirmava ser o escudo oval peculiar aos eclesiásticos.As fontes elucidativas foram várias e de quase todas consegui tirar elementos convincentes à minha asserção.

O aludido examinado mostrou-me vários livros para provar que eu não estava com a razão, porém, estes não me convenceram por se tratar de elementários ingleses.Ora. a Inglaterra não sendo um país católico desde 1509 com Henrique VIII. Deixou de se preocupar em seguir regras adotadas pela França, Itália, Espanha, Portugal, etc.

Pesquisei, então, em torno desses vários países e cheguei ao resultado que passo a expor:

Vemos no: "Abrégé méthodique de la science des Armoiries" de W.Maigne – Paris – 1860:

"Les Espagnols emploient l’écu rond.Les Italiens se servent de L’Écu ovale, surtout les éclesiastiques, Qui l’entourent d’un cartouch, usage également adopté en France.

En Angleterre, l’écu royal est rond, tandis que celui de la noblesse a la forme de l’écu français légèrement modifié à la partie supérieure.

Em: "Alphabet et figures de tous les termes du Blason" – Paris – 1896, par L.ª Duhoux – d’Argicourt, vemos:

Formes de l’écu: Presque toutes les nations ont modifié la forme at chaique de leur Écu; mais il est indispensable, au point de vue héraldique, d’en connaitre les lignes primitives dont voici la déscription:

En Bannière: carré, régulier sur les quatres côtés.

Antique: triangulaire, allongué, vers la pointe.

Français: carré, bas arrondi, avec pointeau milieu.

Anglais: carré, évase en haut, arrondi en bas.

Italien: ovale régulier, ou rond.

Espagnol: carré arrondi en bas.

Allemand: carré, echaneré en haut, arrondi en bas.

Fille ou veuve: losangue régulier.

Todos nós bem sabemos que não há regra sem exceção; porisso, apesar de haver uma forma regular para cada país e portanto com variações locais, aparecem as fantasias ao bel prazer do artista que o confecciona.

No tratado de heráldica do Marquês de Magny, " Sciences des Armoiries", (Claude Drigon) – Paris – 1856, vamos encontrar a mesma definição a respeito da forma dos escudos, concordando com os demais autores.Naturalmente como de hábito encontra-se no fim da descrição uma ressalva onde se lê: "On comprend que toutes ces formes ne sont pas de règles rigoureuse, et que chez les diverses nations dont nous venons de figurer le écus, les peintres et les artistes s’écartent souvent de la forme usitée, cependant un héraldiste exercé, en parcourant les égliss, les cloîtres, les cimetières, les livres du blason, reconnaitra tout d’abord, à la forme extérieure de l’écu et aussi à la nature et à la l’arrangement des pièces Qui le meublent, de quelel nation sont les armoiries".

                                                                                                     fig.1                 fig. 2                   fig.3                 fig.4

                                                                                                           fig.5                   fig.6                 fig.7                   fig.8

Fig.1 - Renaud de Baune, Arcebispo de Bourges. Sec. XVI

Fig.2 - Cardeal Georges d'Ambaose, arcebispo de Rouen. - Sec. XVI

Fig.3 - Abade Jean Baptiste d'Aguesseau.Sec.XVII

Fig.4 - Cardeal Guillaume Egan de Furstemberg, bispo e principe de Strasbourg. - Sec. XVII

Fig.5 - Claude Auvry, Bispo de Coutances - Sec. XVII.

Fig.6 - Cardeal Joseph Fesch, Arcebispo de Lyon., Sec. XVIII

Fig.7 - Denis Auguste, arcebispo de Paris. Sec. XVIII.

Fig.8 - Jean Baptiste Marie Bron, Bispo de Egéa.Sec. XVIII

O grande heraldista francês, o jesuita Padre François Menestrier, na sua obra clássica sobre hráldica "Abregé methodique des principes heraldiques ou du veritable art du Blason" (Lyon 1677), já ensinava que nas armas papalinas e de outras dignidades eclesiásticas os escudos eram ovais.

"Les Italiens se servent plus souvent del l’Ovale, particulierement les Ecclesiastiques".

No seu trabalho heráldico sobre super-livros armoriados, o "Armorial Bibliophile" – Paris, 1872), Joannis Guigard reproduz centenas de super-livros nos quais encontram-se inúmeros escudos eclesiásticos dos séculos XVI, XVII, XVIII, e XIX, e pelos quais se verifica que desde os cardeais até os cônegos usaram em todos os tempos o escudo oval, como demonstram as oito reproduções, neste trabalho (figs.1 a 8).

Dos autores franceses citarei ainda:

M.Jouffroy d’Eschavannes – "Armorial Universel" – Paris – 1884, Tome I, que diz a mesma cousa que os outros já citados, sendo que no escudo de forma francesa depois de descrevê-lo diz mais: "Quoique cette forme soit la plus usitée, on peut la modifier sans qu’il en résulte une faute contre les règles du blason mais il veut mieux la conserver telle puisque l’usage l’a sanctionnée pour la France, d’autant plus que les autres nations ont aussi adopté des formes particuliéres."

Do escudo alemão ele diz o seguinte: "Les allemands sans affecter une forme déterminée, le font presque toujours avec une échancrure pour supporter la lance.

E mais adiante: "Les Italiens se servent de l’ovale, particuliérement les éclésiastiques, dont la plupart l’environnent d’un cartouche, ou ornement extérieur. On présume que la forme ovale fut adoptée en Italie en considération des anciles, que la tradition dit avoir affecté cette forme."

Encontrei mais em Eschavannes, a origem do escudo oval e tomei a liberdade de traduzir:

As ancílias de Roma, cuja origem é imaginária, dão uma idéia de respeito que se prendia às armas desse gênero.

No ano 48 da fundação de Roma, 706 anos ªC., espalhou-se por toda a Itália, uma peste que só teve o seu fim, quando caiu do céo um broquel de cobre.

          

                                                                                                      fig.9           fig.10           fig.11           fig.12            fig.13  

 

 Numa Pompilius consultou a ninfa Egéria e teve como resposta que este broquel seria a égide de Roma, não só contra o ódio de seus inimigos, como também contra a peste e topdos os males que pudessem sobrevir e que na preservação desse escudo, estava ligada a sorte do Império.

O príncipe mandou, então, fazer onze broquéis semelhantes, afim de não ser reconhecido aquele, caso fosse furtado.Estas 12 ancílias foram entregues a um colégio de 12 padres de Marte escolhidos na ordem dos patriarcas, aquem chamavam Sallicus Palatius, do nome do próprio templo edificado sobre o monte Palatiu (hoje Palatino).

Para os melhores cavaleiros romanos, tornou-se uma grande honra poder tomar parte n cortejo que se realizava todos os anos durante o mês de março, onde se viam esses padres, revestidos de vestes bordadas a ouro, coroados de louro, percorrerem a cidade em grande pompa, exibindo as suas ancílias, levadas ao braço direito.

E tal era a importância dessa festa, que não se permitia ao exército romano movimentar-se de qualquer ponto em que se encontrasse.

Era proibido casar, os negócios eram cancelados, e toda empresa iniciada nesse dia causava infortúnio.

Tácito atribui o mau sucesso do imperador Oton contra Vitelius em Ter este partido de Roma durante uma festa dos broquéis sagrados.

Mais adiante o mesmo autor diz: Os Italianos usam o escudo ovl, particularmente os eclesiásticos, sendo que a maioria o envolve de uma tarja ou ornamento externo.Presume-se que a forma oval adotada na Itália em consideração às ancílias, que a tradição diz Ter tomado essa forma."

Como se vê, trata-se de uma lenda com um fundo puramente religioso, e por essa razão deve ter sido conservada tradicionalmente pelos eclesiásticos através dos séculos chegando até nossos dias.

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Na "Enciclopédia Heráldica y Genealógica Hispano Americano" por Alberto y Arturo Garcia Carrafa, tomo 1, cap.III, "Del escudo em General, pág. 18 a 23" encontramos a mesma descrição que acabo de fazer sobre a origem do escudo oval.E ainda o seguinte: "La forma de estos Escudos de Armerias, fué y puede seguir siendolo mui varia, como lo es la inventiva de los hombres o el modo que la variam en cada pais.

A todos es arbitrable la eleccíon "aunque se observa que cada nacion usa por inclinacion o costumbre mas de uma hechura que de outra en que no se encuentre defecto contra el arte, pero pudiendo ser fija su proporcion".(Ciencia Heroica por Avilés. Trat.II, pág.138). Descreve em seguida a forma dos escudos como os demais autores não havendo, porisso, necessidade de repetí-las. Citarei apenas a do escudo oval para maior clareza na exposição. "Los Italianos se sirvem del escudo esférico que usaram los romanos, símbolo de su Império universal.Los eclesiásticos lo traem igualmente ovalado, para denotar el ordem sacro."

Na "Arte del Blasón" de Vicente Castanheda y Alcover – Manual de Heraldica – Madrid, 1923.Pg56 e 57, vemos o seguinte trecho:

"Los eclesiásticos deben usarlo en forma ovalo, en cuanto esta figura denota en heraldica, Ordem sacerdotal".

                                                                                                                      fig.14                                fig.15

                

fig.18

                                                                                                                                 fig.16                               fig.17

                

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Na "Enciclopédia prática de Bompiani" – Vol.II – La vita civil e la famiglia – na paaarte: "Dizionario Araldico" pg. 1143 – temos mais essa confirmação:

Ovale: Forma dello scudo usato in Italia, massimamente dagli ecclesiastici e dagli uomini di toga, che lo ciugono di cartocci, tale si vuole che fosse l’ancile caduto dal cielo nelle mani di Numa, re dei Romani, secondo la superstiziosa opinione, di quel popolo.

O cavalieri Bernardino Radin, no seu tratado de desenho heráldico "Scudero di varii didegui d’arme e targhe, in-fólio impresso em Florença (Itália) em 1636, feito especialmente "per li scutori, pittori e intagliatorri", adota o escudo ovado para reprodução de brasões de armas eclesiásticas (fig.9)

No livro: "L’ornato. Vademecum per Architteti, Blasonatori, Pittori, Scultori ecc.Racolti dal Prof.Augusto Guarnieri, Firenze, encontra-se o escudo do Papa Clemente VI, bem oval.Além desse há um do Papa Urbano VIII extraído de um missal de 1643-5, também oval, tendo no campo do escudo, 3 abelhas postas em roquete. Trás como tenentes, em corpo inteiro, as figuras de S. Pedro e S. Paulo. O escudo é envolvido por uma tarja extremamente fantasiosa encimada pela tiara que por sua vez é ladeada pelas chaves. Igualmente oval é o escudo do Papa Leão XIII, reproduzido do "Noveau Traité des Armoiries" de Victor Bouton, Paris, 1887 (fig.10)

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Por fim, darei ainda a opinião de sois autores protugueses. O primeiro será o tão conhecido e consultado "Armorial Português" de Santos Ferreira que vem confirmar a observação dos demais autores: Diz ele: "O escudo armorial português foi a princípio ponteagudo na sua parte inferior, depois arredondado em semicírculo, à feição dos escudos d’armas de Espanha e de Flandres.Modernamente, tem se vulgarizado em Portugal a forma do escudo francês boleado nos cantos inferiores e terminado em ponta.

Conquanto a forma arredondada tenha foros de clássica na heráldica nacional, é incontestável que a forma francesa é preferível àquela, na maioria dos casos, por não cercear os cantos inferiores do escudo.

Há ainda na heráldica portuguesa, o escudo ovado, especialmente destinado ao clero, e de origem italiana (fig.11 e 20).

                                                                                                                    fig.19                                   fig.20

                  

O segundo, trata-se de uma coligenda de gravuras por Barbosa Machado, existente na Biblioteca Nacional, sob o título "Armas e Brazoens de Varoens Portugueses Eclesiásticos", por onde foi possível estabelecer confronto entre os brasões lá existentes, chegando à conclusão que, para cada três de vários formatos, existem cinco ovais (fig.21).

                                                                                                                                         fig.21                                    

                                                                                                                                                                                                                        

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O escudo da ordem de S. Bento, cópia do existente na Igreja do mesmo nome em S.Paulo, como se vê, é de forma ovalada embora um tanto fantasiosa. Aqui no Mosteiro da mesma ordem há o mesmo porém não é oval. Procurei ouvir vários frades de S. Bento e obtive a informação de existir das duas maneiras, sendo a oval a mais comum.

Em um belíssimo exemplar sobre numismática que se acha na Biblioteca do Museu Histórico Nacional, e que para o Brasil veio em D.João VI, cujo título é "Numismata virorum illustrium ex Barbadica Gente" – Pata VII – Ex.Typographica Seminarii – 1732, encontramos várias gravuras de varões ilustres, cujas imagens passaram para a moedagem. Entre elas há algumas de prelados que se fazem acompanhar de suas armas e em quase todas, vemos o escudo bem oval.(figs.22 e 23).

                    

                                                                                                                    fig.22                                     fig.23

         

  fig.24

Brasão extraído da Vie de Saint François de Sales por Henry de Maupas du Tour. 1657

Além dos desenhos já citados, apresento mais outros de armoriais da Igreja que, com os demais, formam um conjunto em estilo oval. Por aí podemos ver que, apesar dos vários séculos atravessados, continuam indefinidamente com a mesma forma.

Muitos outros escudos do mesmo formato passaram pelas minhas mãos; seria, porém, cansativo e inútil continuar com uma série interminável de exemplos, dado já, o farto número apresentado neste trabalho.

Espero com este estudo Ter conseguido trazer alguma luz a um assunto, que a meu ver, não poderá sofrer contestação.

Fonte:Revista do Instituto Heráldico Genealógico Anos IV e V - nº 8

 2º Semestre de 1940 e 1º e 2º Semestres de 1941

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