TENENTE PINTOR

 

   e sua história

 

Antenor Rodrigues

  vulgo "Tenente Pintor ou Tenente Tabaco"

                          Sempre é bom relembrar o passado e a nostalgia das recordações mexe com o nosso sentimentalismo saudosista produzindo novas emoções e quase sempre revelando novos fatos que enriquecem ainda mais o passado das pessoas, dos momentos e das coisas. As recordações reconduzem-nos rumo aos caminhos já percorridos, ocupam a nossa mente em repouso e permitem-nos buscar aquí e alí os pedaços dos momentos já vividos por nós e pelos outros.A lembrança dos fatos, dos momentos, dos lugares, das coisas sempre acrescentam novos detalhes e enriquecem cada vez mais as nossas emoções.É claro que não vamos aqui esboçar um tratado científico sobre a memória e as emoções no entanto este preâmbulo apenas introduz o enfoque principal de nossas intenções, ou seja, lembrar com justiça, de fatos, pessoas e momentos que o tempo está consumindo. Muitas personalidades que passaram pela história de Itapira e região e que deixaram seus momentos gravados no cotidiano ainda jazem no escuro ou nos bastidores, aguardando o seu reconhecimento. Muitos vates anônimos, desfilaram despretenciosamente pelas nossas ruas, nem sempre premiados pela fortuna.Foram homens simples, modestos, humildes e que em muitas das vezes terminaram os seus dias na pobreza Foram astros de sí mesmos, arquitetos de sonhos e cada um na sua arte nos legaram as suas obras, produzidas quase sempre no subjetivismo de suas idéias iluminadas.Um desses ilustres personagens, foi o sr. ANTENOR RODRIGUES, mais conhecido como "Tenente Pintor ou Tenente Tabaco", que graças ao esfôrco, desempenho e reconhecimento de pessoas ligadas à nossa história, não mediram esforços no sentido de de prestar-lhe uma oportuna e justa homenagem, realizada no Circolo Italiano.Para isso foram reunidas todas as telas (que puderam ser encontradas) pintadas pelo Tenente, com a finalidade de expô-las ao público.Essa grandiosa mostra de suas pinturas foi realizada no final de Fevereiro no Circolo Italiano e  resgatou sem sombra de dúvidas, um pouco da história desse autodidata e mestre do pincel.Figura bonachona, eu o conheci nos meus 9 ou 10 anos em 1955, ele já com seus 58 anos.Lembro-me dele: gorducho, lento no caminhar e no falar, barba sempre por fazer e com as vestes sempre sujas de tinta.Era impossível definir o matiz de cores que lambuzava seu "uniforme" de trabalho.Era ali nas suas vestes que os pincéis encontravam abrigo para a sua limpeza e quando perambulando pelas ruas da cidade à cata de inspiração mais nos parecia um ambulante surrealista e psicodélico cheirando sempre a tinta fresca. O Tenente morou inicialmente com os sr. Joãozinho Brandão, dono da barbearia na Rua José Bonifácio.Depois foi morar numa casinha que o Tatico de Almeida construiu  no terreno de sua propriedade, alí na barroca que dá acesso ao Cubatão pela escadão, entre o Correio atual e a casa do Dr.Natanael Ferreira Nobre.A entrada para a casa do Tenente se dava por um portão aberto no muro que cercava a propriedade do Tatico e que se comunicava com os primeiros lances da escadaria que leva até o bairro do Cubatão.Abaixo vemos o local da casa do "Tenente" após demolida.

Casa do "Tenente" já demolida com um resto de sua pintura numa das paredes (década de 70)

Esse local é o fundo da casa do Tatico de Almeida ao lado do escadão ali existente

O  sr.Tatico de Almeida, o Dr.Natanael Ferreira Nobre, o Prof.Saturnino, o sr.Paulino Santiago, o sr.Harley Marella e muitos outros foram pessoas que conviveram e ajudaram muito o tenente a ter os seus dias menos solitários, mais felizes e produtivos em Itapira.Gostava de pescar e ver o reflexo das paisagens na água, talvez por isso quase todas as suas pinturas eram paisagens rurais onde havia muita água.Falava pouco por isso a análise de sua personalidade torna-se mais difícil.

Tenente Pintor sentado na porta dos fundos do Centro Comércio e Indústria

Ao lado seu inseparável cachorro "negrinho" (Acervo Januário Papléo)

Costumava sempre sentar-se apos o almoco ou a tardezinha na soleira da porta atrás do Centro Comércio e Indústria ou no Bar Central.Pela manhãzinha sempre encontrava um café com leite e um pedaço de pão de Ló que o China e o Lamartini não faziam questão de lhe dar graciosamente.Também seus aperitivos, ele os obtinha no Bar Central em cujo local sempre aconteciam muitas histórias, chacotas brincadeiras ligadas ao seu tipo incomum e popular. O respeito a sua pessoa e ao seu trabalho era mesclado com alguma zombaria e pilheria como sói acontecer com todos os “Carlitos” da vida.Gostava muito de animais e o seu cachorro, "negrinho", sempre o acompanhava pelas ruas.Outro fato interessante sobre o Tenente e quase nunca tirava o chapéu da cabeça e da mesma forma pode se dizer de seu paletó.Possuía também um violino cujos acordes ninguém jamais ouviu tocar.Segundo o Harley Marella o tenente pintor tinha muito medo e não ia muito longe pescar sem ter um companheiro junto.O Paulino Santiago achava-o muito triste e com algumas mágoas,no entanto não desabafava sobre os seus problemas sentimentais.Era um solitário que remoia suas emoções introspectivamente.Às vezes tornava-se irritadiço e era rude nas palavras, principalmente quando notava as segundas intenções de seus interlocutores, ou quando alguém procurava saber de sua vida.Nasceu em Itapira aos 20 de Abril de 1903 e faleceu também aqui em 26 de Julho de 1973 provavelmente por complicações diabéticas.Segundo o Dicionário de Ruas publicado pelo Jácomo Mandatto, Tenente era filho de Francisco Bueno Rodrigues e Elíria Rodrigues de Godoi.Casou-se em Mogi Mirim, separou-se de sua esposa e não teve descendentes.Parece que tinha um irmão em Serra Negra ou Bragança Paulista mas que ninguém nunca soube o nome.Tinha uma casa em Mogi Mirim, muito rústica e pequena que ficava ao lado onde funcionou a Casa Botelho e hoje é uma Floricultura.Segundo o sr.Nelson Patelli Filho, ilustre historiador daquela cidade seu irmão Adilmar Patelli foi aluno do Tenente.Nelson lembrou que conheceu o Tenente nos idos de 1944 quando tinha 8 anos mais ou menos. Conta que quando ia com este seu irmão até o atelier do Tenente observava que havia móveis no seu interior (uma cama, um guarda-roupa, uma pequena mesa e duas ou três cadeiras), daí deduzir-se que o Tenente também devesse dormir alí.E provável que nessa época o Tenente ainda não tivesse se separado de sua esposa e dividisse a sua estadia entre Itapira e Mogi Mirim mantendo ambos ateliês de pintura aqui e lá.São conjecturas apenas.Tenente também era um exímio violonista além do dedilhar solitário, fazia parte de um conjunto musical juntamente com Luis Pupo Cintra, Mauro Machado, Delfino Alvarenga, Lázaro de Andrade e outros.

Conjunto musical integrado por Luis Cintra Pupo, Mauro Machado (sentados).Antenor Rodrigues (segurando o violão),

Delfino Alvarenga (com flauta), Francisco de tal, "Chico Parafuso", (com cavaquinho)

 e Lázaro Andrade (com banjo), numa foto de 1935, Acervo D.Lourdes Andrade).

O sr.Paulino Santiago conhecia o Tenente Pintor desde 1952 e guarda na sua lembrança muitas passagens que vão pouco a pouco nos fornecendo elementos para entender a sua enigmática personalidade.O Dr. Paulo Fernandes o conheceu quando cursava o Ginásio e hoje além de ser um dos organizadores da homenagem que lhe será prestada foi quem gentilmente me cedeu as fotos que ilustram esta crônica.Não sei se o Tenente nasceu rico, mas e certo que terminou seus últimos dias num leito da Santa Casa local muito pobre.Apesar disso não lhe faltaram recursos e amigos que o confortaram ate o fim.O mínimo que se poderia fazer por este ilustre itapirense do anonimato é o que essa plêiade de homens, seus admiradores e amigos estão fazendo.Reconhecê-lo como homem, como artista e como um solitário arquiteto de sonhos cujo nome deverá figurar na história de nossa terra e de nossa gente.

Tenente e seus passeios

Em Aparecida do Norte:

A foto que seria apresentada aquí, está em péssimas condições e mostra o Tenente Pintor já doente e usando bengala, povavelmente pagando alguma promessa.Vemos também o sr.Gregório Longhi (motorista de táxi), pai do Carlucha, o Reyneri Pelizzer (que aprendeu seu ofício com o Tenente) e o Armando Português (motorista de táxi)

  Na praia :

O Dr. Natanael Ferreira Nobre de calção de banho e o Tenente vestido "a rigor"       

                 

Praça "Tenente Pintor" em construção.

Inaugurada em 1978 em homenagem ao grande artista Antenor Rodrigues

 

 

Praça "Tenente Pintor" atual, após construída e posteriormente reformada

ainda em 1978 

Anterior // Índice // Próxima // Início // Índice Geral