
Desde aquela época nem se comprovou e também nem se
afastou a hipótese da tão propalada visita. Quando publiquei a matéria
sobre “Ferrovias e a CIA. Mogiana (2ª parte) do dia 21 de Maio de 1998 onde
listei as três viagens que fez S.M.I. a nossa região, fiz ver nessa época que
foram 3 as viagens feitas pelo Imperador à região de Campinas:
1)
Em 27 de Agosto de
1875 quando
inaugurou
2)
Em 14 de Setembro de 1878 quando inaugurou o trecho ferroviário
entre Mogi Mirim e Casa Branca.
3)
Em 26 de Outubro de 1886 esteve visitando as Igrejas, o Cemitério
.
Em
nenhuma dessas viagens se obteve registro de que D. Pedro II pudesse ter estado
aqui. E ainda na época argumentamos que na primeira e segunda visitas, era
impraticável ter ele estado em Itapira porque o ramal férreo para Itapira
somente iria ser inaugurado em 1882.E também porque Noé Rocha o menino
escolhido (conforme “Hélio” o articulista anônimo) pela Escola para
homenagear o Imperador com um discurso teria
nas datas de 1875 e 1878 , 1 e 4 anos respectivamente porque nascera precisamente
em 14 de Março de 1874. E como sabemos essas idades não são idades escolares.
Em 1886 data da terceira visita, aí sim pode te ocorrido a visita
porque o ramal férreo já havia sido inaugurado e Noé já estava com seus 11
para 12 anos, portanto em idade escolar. Apenas que nessa data também não
existe o registro de sua passagem por Itapira. Tudo fica portanto na estaca
zero.
Para demonstrar que pelo menos até agora não há provas de que o Imperador esteve em nossa cidade, transcrevo abaixo as viagens de S.M.I. D. Pedro II, levadas a efeito pela Província de São Paulo desde 18 de Agosto de 1875 até 01 de Abril de 1881.Tais informações foram obtidas pela Dra. Nilsa Cantoni, advogada, e pesquisadora de genealogia e historia, através do Museu Imperial de Petrópolis, quando deu buscas aos documentos originais sobre as viagens do Imperador à Província de São Paulo. Pesquisando ainda o ano de 1886 data mais provável para a vinda de sua Magestade a Itapira Dra. Nilsa não conseguiu encontrar nenhuma prova documental dessa suposta viagem. Parece tratar-se mesmo e apenas de uma fantasiosa invencionice do articulista “Hélio" . Segundo ainda o próprio Jácomo Mandatto houve quem afirmasse na época que o dito “Hélio” era o nosso grande escritor e poeta Menotti Del Picchia. Mera suposição!

Neste Museu Imperial de Petrópolis estão as provas documentais
de que S.M.I. D.Pedro II não esteve em Itapira
VIAGENS 1975
No próximo capítulo daremos sequência às viagens de SMI pela Província de São Paulo naqueles idos de 1875.Como podemos observar ,o Imperador ia anotando ele próprio num caderninho de notas e à lápis suas impressões a respeito da geografia dos locais por onde passava, comentários sobre suas visitas, ocorrências durante as viagens, anotações sobre o tempo e condições meteorológicas, críticas, elogios e um sem fim de particularidades que enriquecem sobremaneira, do ponto de vista histórico, as cidades por onde passou.

Neste comboio puxado elegantemente pela locomotiva "A Baroneza" a comitiva real e sua Magestade Imperial D.Pedro II fez suas viagens a província de São Paulo de 1875 a 1876 - mas não esteve em Itapira.

Coroa de S.Pedro II (Museu Imperial de Petrópolis
Chegada ao meio-dia ½. Coberto de pó mudei-me e fui ver o Convento de S. Bento. Repararam-no — não achei as pintura antigas.
Depois à fábrica do Dr. João Ribeiro de fazer tijolos, telhas, panelas, etc. e pedra artificial com ornatos. Os fornos admitem 80.000 e 30.000 tijolos. Faz telhas francesas.
O sócio Clavel está em França e quer admitir todos os melhoramentos. É fábrica importante.
Vi a marcenaria de Sydow. Tem máquinas das mais aperfeiçoadas.
Visitei a triste casa dos lázaros. É uma senzala. Há de ter muito frio. Almoçam um pão de 2 vinténs com água e açúcar. Há 6.
Depois a casa de Carlos Rath velho. Tem coleção curiosíssima do que achou nos sambaquis. Merece ser estudada melhor que no folheto que ele publicou e eu li na volta de Sorocaba.
Enfim o edifício que se fez sob a direção do Quartim para vacaria (?) e mercado — o lugar é central e entre ruas apertadas — a escola normal e tesouraria provincial em cima! O primeiro andar descansa sobre colunas, e abóbadas de tijolo. 5 ¼ jantar. De 6 às 8 recepção.
Vi as folhas da planta da estrada de ferro para Bragança.
Fui às 8 à associação propagadora da instrução. Tudo fechado apesar de ter sido prevenido o Dr. Leôncio — é verdade que é hoje domingo.
Teatro de S. José. Assisti somente a ato e meio da zarzuela. Vento muito frio.
Às
7 ½ marcou o termômetro exposto ao ar do lado que não venta 61º. O mesmo há
pouco.
23 de agosto de 1875 — 5 ½. Term. noite fora 51º. Parto às 6 para Jundiaí e Itu. Chegada a Jundiaí às 7 ½. Reza matriz.
Almoço em casa do Queirós Teles. Partida às 9.
Caminho bonito à margem do Jundiaí, que às vezes corre por baixo das pedras.
Chegada a Indaiatuba cerca das 10. Eu só tomei pelo ramal de Capivari, ficando alguém na estação de Indaiatuba. Este ramal tem obras de arte que não há na linha de S. Paulo e Jundiaí onde contudo se passa um túnel de 600 metros.
Ontem houve um desmoronamento numa cava de terra muito friável que se desfazia com a trepidação da passagem do trem.
Pelo ramal de Capivari fui até à estação de Monsenhor antiga Água-choca. Esperei debalde por segunda locomotiva para volta.
Tardando ela julguei o caminho impedido, mas felizmente depois de 3 horas de demora na estação do Montemor pudemos seguir logo que chegou notícia que a segunda locomotiva arrebentara o tubo do injetor pouco distante de Indaiatuba.
Aí cheguei depois das 4 e a Itu passadas 5 horas.Brilhante recebimento.
Já vi a testa de sua música o Elias Lobo da Noite de S. João.Depois do jantar fui ao Te Deum.
Acabo de falar com o vigário Miguel meu conhecido e vou descansar. Estive em casa do Queirós Teles na rua do Comércio.
O frio em Jundiaí chega a zero. Em Itu somente a 38 F.
O mais velho dos filhos do Queirós Teles, Barão de Jundiaí, vai montar nesta cidade uma fábrica de fiar e tecer algodão com 36 teares.
Dentro do quarto 68º. Segundo o traçado do engenheiro Bematon fazia-o quase sobre o Salto, o que seria muitíssimo pitoresco.
17h Tendo o termômetro ficado fora da janela algum tempo indica neste momento 60º.
24 de agosto de 1875 — 6h 58º F.
7h Fábrica de fiação do Anhaia. 500 tantos fusos e 25 teares. Só pano grosso. Descaroça o algodão. Teatrinho de 3 ordens com 18 camarotes cada uma e um mais largo no centro da 2ª ordem.
Colégio de S. Luiz dos Jesuítas. Casa grande ainda não acabada. Um leigo italiano chamado Alberani ou cousa assim fez um pequeno aparelho eletro-telegráfico que já servia para comunicar todo o colégio e pinta uma sala — mediocremente.
Ouvi alunos: em filosofia — o padre Fialho professor disse-me que ainda não davam metafísica — silogismo;
Latim — professor Sabbatini que parece-me muito hábil o rapaz traduziu bem Cícero e Vergílio a livro aberto
Geometria professor Aureli — é o reitor — um menino Toledo mostrou muito talento. Vim almoçar.
Às 10. Casa da Câmara sofrível e cadeia que não me agradou. Poucos presos. O padrão do metro quadrado [guardado?] com pouco cuidado.
Volta
à casa e saímos para o Colégio do Patrocínio — as mesmas irmãs da misericórdia
— Misericórdia.
Bem montado. — irmãs de S. José. Aulas de 1as letras de Pereira Jorge — primo do marido da Domitilia.
Os
meninos tinham-se ido — uma professora medíocre — saletas pequenas para os
alunos.
E
de Latim de Joaquim Mariano — é bom professor desta língua como de francês
— rapazes saíram-se sofrivelmente.
Lázaros.
Péssima casa. O Padre Bento é muito caridoso para eles, mas também almoçam pão
e água com açúcar. Bem arranjado. As meninas recitaram em português e em
francês.
Chácara
de José Elias Pacheco Jordão pertencia quando estive aqui ao atual Barão de
Piracicaba. Plantação de chá colhem de cento e tantas arrobas. Chupei
laranjas, assim como comi excelente goiabada.
Estive
antes do Patrocínio no sítio de plantar chá de Egídio da Fonseca. Colhe de
200 a 300 arrobas.
Pedreira
de Itu — Camadas de grés. Salto de Itu. Até à estação do Salto de estrada
de ferro e depois a pé. Ligeiro iris na poeira da água do Salto.
Andorinhas
(Taperós) que vem dormir entre os rochedos pegados a eles, como morcegos.
Fábrica
que já começou a trabalhar do Galvão. Movida por água do Tietê. 2600 fusos
a 50 e tantos teares. Pano grosso e menos grosso.
Vi as oficinas da estrada de ferro, Jantar, Recepção.
Houve
gelo desde esta manhã feito em máquina de Caré pelo boticário Teófilo
Fonseca. Instituto Ituano do Novo-Mundo.
Aberta a aula de 1as letras noturna de Pereira Jorge. Vão se abrir as de matemáticas elementares professadas por Grey empregado da estrada de ferro e de história pátria do Juiz municipal de Itu, Assis Pacheco.
Biblioteca em princípio. Objetos mandados dos Estados Unidos pelo Dr. José Rodrigues do Novo-Mundo.
Conheci João Tibiriçá. Moço simpático e que parece ter muita inteligência. Estudou química sobretudo na Europa e pretende fazer um curso dessa ciência aplicada principalmente à agricultura.
Elias Lobo e o cunhado Tristão Mariano procuraram-me. Aquele tem composto músicas sacras que prometeu-me mandar para o Rio. Eles [convidam?] a um congresso de música na cidade de S. Paulo a 26 deste para cuidarem da proteção e desenvolvimento da arte.
Almeida Leme mostrou-me um projeto de história de Itu com desenhos com principais edifícios feitos por ele que dizem maluco. Talvez a obra seja curiosa. Às 10 ½ da noite fora da janela 58º F.
25 de agosto de 1875 — 5 ½ no quarto 68 fora 58º F.
Às 6 parto para Campinas.Chegada às 7 ½ a Jundiaí. Almoço, Saída às 9 ¼., Chegada a Campinas às 10 25’, Caminho mais bonito.
Belo aspecto da estação pela vista e quantidade de gente e de carros.Casa do Joaquim Bonifácio do Amaral excelentemente preparada, Almoço.
11h 35’(2) Casa que se constrói para Misericórdia por esforços sobretudo do padre Vieira de que se diz muitíssimo bem. Dizem que até alguém o assustou de noite mantendo-lhe dinheiro na mão.Linda posição. Ficará talvez o segundo hospital do Brasil (1).
Colégio Culto à Ciência. Bem montado ouvi estudantes nas aulas de aritmética, física, alemão e latim. Um estudante pareceu-me distinto por seu caráter estudioso — quis traduzir Tito Lívio apesar de não ser o livro da classe — e passa pelo melhor.
O professor de Física Renschler pareceu-me confuso nas idéias. O de latim é o filho de Hércules Florence.
Fábrica de chapéus — faz 300 por dia — de Bierrembach onde vi um maquinismo para começar o trabalho tão pesado à mão nos tachos de água fervendo. Muito bem montada. Pedi-lhes um chapéu que ele deu de pelo de raton do Rio Grande do Sul.
A fundição é ainda melhor. Tem um martinete automático como não vi no Rio e pretende misturando ferro da Europa e de Ipanema na fusão obter fundições cuja superfície seja endurecida por um resfriamento rápido em forma de ferro. Pode fazer locomotivas e todo o gênero de trabalhos, estudam a introdução do processo Bessemer. São 3 irmãos. O mais velho nascido em Pelotas e os outros em S. Paulo. O pai veio com as tropas estrangeiras no tempo de meu pai e a mãe viúva foi professora em S. Leopoldo.
Fábrica de Sampaio de tijolos por máquina Clayton que faz 4000 em 5 horas. Tem motor de vapor e de água. Fornos de cozer 80.000 e 30.000. Vi o que resta da antiga fundição. Comunicava-se o escritório com as oficinas por tubos acústicos onde se ouvia à distância de 300 palmos. Sampaio, genro do Três Rios parece-me muito inteligente.
Colégio internacional Morton. Muito bem montado. Ouvi nas aulas de português professor Pestana, álgebra e história e latim o Morton, e grego Dabney, que em 6 meses já fala bem português. Em álgebra pôs muito bem em uma incógnita de 1º grau a equação e resolveu-a a rapariga Newmann. Vi sobre um harmonium um livro de cantos publicado na imprensa evangélica do Rio.
Cemitério geral e do Sacramento. Nada de notável e não tem capela.
Passei pelos alicerces do novo lazareto de bexiguentos, para que há 20 contos de subscrição e fui ao atual muito melhor que os outros. É médico o Dr. Marinho filho do Dr. Marinho americano.
Depois do Culto à Ciência tinha ido ao gasômetro. Muito bem arrumado. 2 gasômetros.
Muito contribuem para esse trabalho assim como para o Lazareto o Tenente-Coronel Quirino dos Santos.
Oficinas da estrada de ferro Paulista. Melhores as da Ituana. Apenas fazem reparos.
Colégio de Mme. Florence. Tem três professoras Melles Schmid, Kasselman e Zoega, sueca. Ouvi meninas em alemão e francês. A filhinha do Hércules Florence respondeu bem em alemão. É espertíssima. Florence mostrou-me pinturas suas. O retrato por acabar do Carlos Gomes está horrível.
Colégio Perseverança do Cesarino e sua mulher pardos. Tem muitas meninas e é conceituado.
Matriz nova. Linda obra de talha sobretudo em altares ao lado do arco-cruzeiro. O altar-mor é obra de um Vitoriano da Bahia.
Casa da Câmara e da cadeia piores que as que tenho visto.
Perto de 6h jantar. Conversei durante ele com o botânico boticário Joaquim Correia de Melo sobrinho do Francisco Álvares Machado. Tem relações com Bureau, Hooker e outros. Descobriu novamente um gênero de bignônia.
É um velhinho muito inteligente, vivo e limpinho. Gostei muito dele. Prometi-lhe a remessa regular da Flora de Martius.
Depois
recepção. Vieram os alemães cantar. Te Deum.
O
pregador é sofrível e vigário da paróquia da Conceição desta cidade.
Entoou o Te Deum o Cônego Montenegro irmão do da Nova Lousã.
Procurou-me durante a recepção o Dr. Valentim da Silveira Lopes dizendo-me que o fazia pelo bem que eu tratara sua filha que recitou uma parte do Misântropo de Castilho e é professor de S. Cristóvão.
Enfim teatro que é sofrível. Assisti a 2 atos da zarzuela O Juramento.
Term.
fora 60º — 1h 5’ do dia 26.
26 de agosto de 1875 — 6 ¾ 58º fora. 7 saída. Visitamos a matriz nova.
Fazenda das 7 quedas. Vi as casas dos colonos. Parecem prosperar, sistema de parceria. Conversa longa com Joaquim Bonifácio do Amaral sobre a colônia. Ele sustenta acèrrimamente esse sistema. As máquinas de Lidgerwood para o café estão muito bem montadas e são movidas pela água do ribeirão das 7 quedas. Almoço.
12 ¼ saída para Nova-Colúmbia colônia de Montenegro associado a Barbosa.

S.M.I D.Pedro II (Museu Imperial de Petrópolis)
Ao longo de quase 70 anos persistiu nesse hiato histórico de Itapira a interrogação dessa pretensa viagem de D.Pedro II a nossa Penha do Rio do Peixe do século passado. Com isso as mais variadas versões ora afirmavam, ora negavam tal acontecimento, sem contudo basear-se em fundamentos comprobatórios. Debalde tentamos trazer a tona as provas concludentes dessa premissa. E dessa maneira tornamos os pseudo- detentores dessas provas e histórias, desacreditados nas suas afirmações já que não se expõem na apresentação das mesmas. Esgotados portanto o processo de busca mais expressiva do que esta, conclamo as vozes contrárias para que num último laivo de lucidez e amor pelas causas históricas que em sendo possuidores dessas provas apresentem-nas. Somente assim poderão se confrontar na posteridade com a próprio óbvio de seus anseios, ou seja a notoriedade. Em não se pronunciando para dirimir tal fato histórico é conclusivo aceitar-se os argumentos aqui expostos sem maiores delongas.
Após esse preâmbulo expomos abaixo o conteúdo do Diário número 22 da Segunda viagem do Imperador a Província de São Paulo.
Diário
no 22
10/09
a 01/10 de 1878

Tela do Museu histpórico nacional da Guanabara, RJ retratando o imperador D.Pedro II já envelhecido
10
de setembro de 1878
— Guaratinguetá - Pindamo
11
de
setembro de 1878 — Chegada S. Paulo
(eixo quebrado).
12
de
setembro de 1878 —
Às 9h saída — 10 às 2 — fábrica de tecidos de algodão de Diogo Paes
de Barros — Passeio Público -5 às 7 - Ipiranga.
13
de
setembro de 1878
— 7 às 9 de carro Penha. 10 ½ a 3 ½. Curso de direito — Escola
Normal — Penitenciária — Fábrica de obras de madeira de Braga —
Litografia de J. Martin depois de hoje marmorista de Martinelli tendo antes ido
ao Instituto de D. Rosa de Sousa Queirós — 5 a 7 — Colônia de Sta. Ana.
14
de
setembro de 1878
— Campinas-Mogimirim. Passeio na cidade e circunvizinhanças, Igreja
do Carmo e antes Matriz.
15
de
setembro de 1878
— Missa (domingo) Casa Branca — Sorócas — Linha mais longa.
16
de
setembro de 1878 — Colônia de Nova Lousã
— Trovoada a chegar a Mogimirim — e maior no caminho do Amparo.
17 de setembro de 1878 — Amparo — Matriz — escolas. Colégio de Vivien da Amelot em Petrópolis — Visita à Colônia do Salto onde houve a greve.
Chegada
à Campinas às 6 ¼ da tarde.Cartas da Europa.
18
de
setembro de 1878 — 7h Bierrenbach —
Gabinete de leitura — Colônias de Sete Quedas e Saltinho.
Escolas — Colégios Cultura à Ciência e Morton — Obras da Matriz, depois
de Rink e Hipódromo.À noite conversa sobre a colônia do Salto.
19 de setembro de 1878 — Limeira — bonito caminho sobretudo a posição da fazenda de Cândido Serra — Rios Piracicaba com sua ponte delineada pelo Antônio Rebouças e o Tatu que se passa 14 vezes. Matriz bonita — escolas — Câmara e cadeia. Fazenda do Morro Azul de Silvério Jordão — bom maquinismo — casa de forma original com linda queda de água artificial no fundo — fazenda da Laranja Azeda dos Três Rios — excelente quanto à produção.
Chegada
à Rio Claro à casa do Barão de Araraquara que foi Alferes no tempo de meu
pai, a mulher filha do Dr. Melo Franco que veio com minha mãe. Tem 78 anos e
bisnetos e 12 filhos vivos, 6 homens e 6 mulheres.
20 de setembro de 1878 — Matriz, Câmara, escolas, gabinete de leitura — Araras, almoço.Pirassununga — última parte quase feita — passagem da ponte — Matriz, câmara, escolas — conversa sobre o prolongamento. Volta a Araras. Casa do Lacerda, 2 irmãos, cada um com 12 filhos cada um, 6 homens e 6 mulheres — o [ilegível] patrão casado com a sobrinha. Deltago [?] forte.
Fábricas de beneficiar café de
Ferraz em Rio Claro e do americano Eduardo Niss em Pirassununga, que monta também
serraria. 400 rs por arroba de café beneficiado. Discurso de Olímpio de Tal em
Pirassununga.
21
de
setembro de 1878 — Matriz e pequeno giro
pela povoação bem arruada. Campinas — casa do club bem arranjada e com
grande salão.Chegada a Jundiaí.
22 de setembro de 1878 — Matriz, Câmara e cadeia de alçapão — colégio em casa pertencente à Câmara que a emprestou a Rita Sayão Lobato com a condição de educar gratuitamente 3 meninas. Gostei de ouvir as alunas sobre português, francês, contas e história. É internato de 30 e tantas. Escolas primárias — boa fábrica de tecidos de algodão de Joaquim Benedito Queirós Teles. Há de recomeçar a trabalhar em um mês .Capivari — excelente casa onde almocei. Matriz, Câmara e Cadeia sem preso — gabinete de leitura bem começado, escolas — uma particular procurando eu um livro para leitura deram-me a Vida de J. Cristo por Renan versão portuguesa — desculpa de que era da mestra que o obtivera do gabinete de leitura.Chegada a Piracicaba bela posição, e brilhante recepção. O J. B. de Queirós Teles disse-me que a irmã viúva do Senador Fonseca tem tirado bons resultados da sociedade com um francês, que se entende com mais de 100 colonos, a maior parte franceses, dando-lhe ele metade da colheita do café, que eles colhem, casas e 400 rs por cada pé novo de café plantado.
Os Lacerdas têm colonos sem contrato pagando-lhes eles 500 rs por alqueire de café. J. B. Q. T. tem colonos de parceria administrados pelo filho de um colono suíço que ele diz excelente. Ele está convencido da vantagem de vender tanta terra desaproveitada.Vi no caminho de Jundiaí até Capivari sobretudo excelentes para arar e plantação de cereais não valendo senão 50$000 5000 braças quadradas. Há nesta província muitas terras baratas e aproveitáveis para colonos à beira das estradas de ferro, por isso que não servem para cafezais. O mesmo já observara às margens do Paraíba.
O
Q. T. pretende montar um engenho beneficiador de café. A empresa do engenho
central de açúcar perto de Porto Feliz começará a trabalhar brevemente. A
cana virá a ele pelo rio Tietê. Dista 5 léguas, mas de mau caminho partindo
de Capivari. Sinto não ir lá, mas nem tudo se pode fazer no curto tempo de que
disponho. Muito há que fazer no Rio.
23
de
setembro de 1878 — Jornal do Comércio de
22 — eleições da Paraíba chegada na véspera a Piracicaba, que apresenta
bonito aspecto vendo-se no horizonte uma serra com um corte de forma de semicírculo
levantando-se por detrás um morro cônico.Passeio ao Salto — muito bonito —
café em casa do Dr. Estêvão Ribeiro de Resende meu afilhado de batismo e da
Mana Chica, último filho do Valença, genro do Barão de Serra Negra.Navegação
do Piracicaba de ajoujo por baixa das águas até o Canal torto e depois em
pequeno vapor de 25 cavalos até o Limoeiro por falta de tempo. Nas cheias o
vapor navega do porto da cidade abaixo do Salto até Lençóis 42 léguas —
frete 11 rs por arroba e quilômetro.Pode-se fazer facilmente um caminho de
trilhos do Canal torto até à cidade, tendo andado na volta este espaço de
trole.No lugar chamado Enxofre sente-se este cheiro, e além do morro desse nome
o Luís Vicente de Sousa Queirós espera encontrar carvão de pedra. Vi no
passeio das 7 às 9 a fábrica de tecidos de algodão montada por ele perto do
Salto. Pareceu-me boa.
24
de
setembro de 1878 — 7 às 9 — Visitei Câmara
e cadeia — obras da cadeia nova mal feita; serve antes para escola — escolas
e gabinete de leitura — sofrível casa a dos meninos, missa por alma de meu
pai, e vim almoço [sic].16 partida
para S. Paulo. Em Itaici vi luzerna da plantação de Tibiriçá. Dá 7 contos
ao ano. Já colhe de 6 a 700 toneladas e vende a 1500 rs a arroba. Chegada a S.
Paulo antes das 5.
25 de setembro de 1878 — 7h partida para Sorocaba. No pantojo vi a mina e forno de cal de pedra mármore do Stavaux. Prometeram-me amostras na volta.
Chegada
a Sorocaba perto do meio-dia. Almoço em casa do Mogimirim que apesar dos 83
anos ainda parece o mesmo de há 3 anos. Fui ver Matriz, Câmara e cadeia,
gabinete de leitura — o melhor dos que tenho visto — escolas e fábrica de
chapéus do Rogisch que me deu um. Partida às 3h chegada a Ipanema tomando o
trole a 2 km. da fábrica, pois aí fica a estação da Sorocabana às 4 ¾.
Jantar às 6. Conversa com o Mursa.
26 de setembro de 1878 — Li o ofício do Mursa de 3 de abril deste ano sobre o futuro da fábrica. Não o conhecia nem o Ministro da Agricultura.
7
às 9 vi todo o fabrico. Só notei o acabamento da oficina nova para carpintaria
e outros serviços e o princípio do novo “forno alto”. Correu fusão e
refinou-se. Canal projetado para obter maior força motriz de água.Depois do
almoço as 10 até 4 ½ correr de trole os matos vendo a oficina de hostulação
etc. e carvoarias. Rodeei o campo fora do terreno da fábrica e perto da estação
da estrada de ferro, que está destinado para colônia industrial. Apanhei duas
boas pancadas de água, mas não por muito tempo e apesar de estar em trole
descoberto pouco me molhei debaixo do chapéu de chuva. O caminho escorregava
muito e quase não se pôde galgar a subida que fica no caminho para Tatuí.
Larga conversa com o Sinimbu e Mursa. Este quer chamar tudo para a fábrica que
entende deve ser empresa indústria.Continuando a Sorocabana até a cidade do
Tietê. Vencidas as quedas do Avanhandava e Itapura por meio de canais laterais
com comportas — Calcula a despesa em 3.000 a 4.000 contos — fica livre a
navegação até o Paraná onde se lança o Pardo, que dista pouco do Cochim
afluente do Paraguai.
27
de setembro de 1878
— Hospital existente — as obras do novo e da escola, cadeia. Partida às 9.
Chegada a S. Paulo à 1 ½ 5h 1a pedra das obras da companhia do
fornecimento de água da Cantareira e dos esgotos da cidade. Choveu um pouco.
Baixou bastante a temperatura. Cartas da Europa.
28 de setembro de 1878 — 8 a 9 sabatina da aula do Falcão. Falaram bem Prestes e sobretudo Magalhães Castro — 1º o cego pode testar cerrado 2º não.
12 a 1 sabatina na aula do Furtado — legitimidade do contencioso administrativo. Não brilharam os estudantes 2 argüentes e 2 defendentes. O filho do Sinimbu defendente pareceu-me medíocre. Vi um quadro de um alemão exposto na Igreja do Colégio — muito ruim.Cartas da Europa — bilhetinho da Condessa.
3
½. Estrada de ferro de Santos até S. Caetano — colônia do governo — de
italianos.¼ de hora — 162 estabelecidos os mais antigos há pouco mais de
ano. Parece que prosperaram plantando cereais. Convém que tenham melhores
casas. Estão contentes. 5h de volta.
29 de setembro de 1878 — 7 ½ para Santos. Planos inclinados. Chegada às 11. Lazareto de bexiguentos em S. Bento. Fonte de Itororó.
3
½ S. Vicente. Já terceira Igreja. Só uma casa velha talvez da primitiva.
Fonte romântica. Tem-se edificado bastante desde 1875.Caleira de Sambaqui de
Jorge Avelino. 3 fornos de 8,40 e 27 moios com máquina de vapor. Bem montada.
Fui eu que dei o primeiro movimento à máquina de moer o Sambaqui. De volta às
8h
30 de
setembro de 1878 — 7h Passeio ao alto de
Monserrate. Linda vista — cidade e Mar Alto.
1
de 8bro. outubro de
1878 - 7h
Partida para S. Paulo. Chegada pouco antes das 10h,De 11 às 3h Escola Americana
— com seu Kindergarten — 2 casas feitas para escolas em
terrenos doados. Cavalos de puro sangue e meio-sangue de Antônio Prado e plantações
de alfafa e luzerna etc — máquina de Fernando de Albuquerque meu conhecido
dos Estados Unidos onde estudou na Universidade Lafayette para rachar lenha
feita na pequena fundição do Dias. Instituto dos Artífices.5h primeira pedra
para o novo hospital da Misericórdia no lugar chamado Bexiga.
VOLUME
24
VIAGEM
A MINAS GERAIS - PRIMEIRA PARTE
26/03
a 19/04 de 1881
INÍCIO
DO TEXTO DO DIÁRIO DE D. PEDRO II

Primeira locomotiva a trafegar no Brasil.Nela S.M.I. D.Pedro e sua comitiva Real percorreu toda a província de São Paulo.
Não consta em nenhum documento comprobatório que sua majestade esteve em Itapira.
26 de Março
de 1881 (sábado) - Partida da estação de S. Cristóvão às 6 h da manhã.
Almoço na barra do Piraí. Retiram-se os Ministros Saraiva, Dantas e Homem de
Melo assim como Martinho presidente do Rio 001 com quem conversara
longamente. Observei bem a estrada na subida da Mantiqueira tendo passado por
uma galeria atrás do trem.
Chegada
à Barbacena às 4 ¼.
Quiseram
que eu viesse até casa 002 debaixo de pálio. Escusei-me por não
ser a primeira vez que visito Barbacena. Segui devagar em carro.
Cuidam
de encanar água para a cidade. Pouco pude informar-me até agora. Deputação
de chefe de Polícia 003 e outros empregados vindos por parte do
vice-presidente 004 que se desculpa com incômodo que o priva de
montar a cavalo. Não sei quanto tempo ficaram esses empregados ausentes de seus
lugares.
Ouvi
em conversa que dava muito bem café em Itabira 005. Recebi visita
das 7 às 9. A Câmara Municipal convidou-me para assistir amanhã ao
assentamento da pedra fundamental de uma penitenciária que deve ser, segundo a
lei, do sistema de Filadélfia modificado. Não há plano nem orçamento.
27 de
março de 1881 (domingo)
- A noite foi muito fresca. Dormi bem.
7
h. Ida ao alto do Monte Mário onde se chegou às 7 h 35. Havia nuvens no
horizonte, porém descobri a serra de S. José, Morro de S. João Del Rei, monte
de Prados para o lado O. e do S. os serros de Ibitipoca, de cujo cimo disse-me
Mr. Lepage que se descobrem com óculo as montanhas de Petrópolis 006.
11
h. Missa conventual - Misericórdia. Não teve melhoramentos. Carece de água
corrente em abundância. Pedra fundamental da penitenciária da província no
antigo morro da forca - que diferença de épocas! Discurso curto e bem feito do
presidente da Câmara Dr. Sá Forte 007.
Aulas
de meninos onde vi como mestra a filha do Castro 008, que tem plantação
de vinha de que faz vinho, e de meninas cuja mestra é a mulher do Castro. A
casa não é má. Não gostei em geral do adiantamento na instrução, sobretudo
religiosa. Colégio do Dr. Abílio 009 (antigo Perseverança -
agradou-me) e de D. Isabel de meninas ainda mais.
Câmara
Municipal - o primeiro andar desagradou-me - o térreo foi limpamente arranjado
para fórum. O secretário 010 não guarda com cuidado os padrões métricos.
Deu-me informações menos exatas sobre os fundos de que pode dispor a câmara
para o encanamento de água. Na praça da Câmara fizeram o jardim mas cuja
grade de pau é feia por ora enquanto não crescerem as trepadeiras.
Cadeia
muito ruim. Carcereiro inválido quase. Livros mal escriturados.
Laboratório
Lepage. Tem novos preparados de plantas indígenas.
Escritório
das obras da estrada de ferro 011. Tudo muito em ordem. Pequeno
observatório astronômico e meteorológico - espécie de mangrulho 012.
Hipólito
Aché indústria os empregados da estrada nas observações. Pedi uma informação
do que se tem feito. O desenhista Mayschek, sobretudo em topografia, é habilíssimo.
Teatrinho
muito ruim onde representou a família Escudero. Tomei chá e deitei-me perto de meia-noite.
28 de março de 1881 (2a fa)
- Partida à 6 ¼ por pequena demora das liteiras 013 e montaria.
Comera alguma coisa às 5 ½. Cheguei à 1 ½ ao sítio do Gentil 014
para cá do Carandaí. Fui pelo leito da estrada de ferro primeiro a cavalo e
depois em besta. Caminho de trole. As nuvens formam cômodo chapéu de sol.
Andei 36 km. A estrada parece ter sido mal estudada e mal feita que pude ver
passando.
O
viaduto da Boa Vista ao sair de Barbacena tem a cabeça do lado oposto e está
rachado, segundo disse-me Ewbank 015. Há aterros e consideráveis,
onde podem ir o leito de nível, a pouca distância, exigindo a má direção
revestimentos de pedra dispendiosos. Aterros abatidos e um deles de tal forma
que exige que o leito tome outra direção ao lado. Talvez alguns túneis
houvessem poupado bastante despesa. Não me agradou o que vi embora Ewbank
prevenisse às vezes meus reparos. Há muitíssimos cortes e alguns imensos só
para suprimento de terra.
Não
observei nenhuma cultura. Plantas selvagens que vi no Paraná. Só na fazenda da
Costa da Mina - lugar da estação de Ressaquinha - cuja casa de vivenda
data mais de cem anos - é que descobri pequenos grupos de pinheiros como os do
Paraná. O ponto mais elevado sobre o mar de toda a estrada de ferro do Rio a
Macaúbas é o da Garganta da Porteira Caiada, que
vai chamar-se, segundo indicação de Batista Caetano, Ibaté (1179m. - O
túnel do Ouro Branco tem 1132m).
O
Sr. Gentil tem na sala uma litografia do retrato de Afonso Celso 016.
Parece inteligente. É empresário da navegação do Jequitinhonha de
Canavieiras a Panelas e de estrada de ferro ao largo das cachoeiras, continuando
a navegação até Arassuaí. Sugeriu-se à vista do mapa que seria mais
conveniente a estrada do Porto de Sta. Cruz na costa até Panelas, são mais 12
léguas ao todo 30 (18 aproveitando a navegação do baixo Jequitinhonha). Diz já
ter formado uma comandita para 2400 contos (20 contos cada km. de bitola de
metro). Disse-me que plantou aqui para gasto doméstico. O terreno nada dá no
descampado. A 1 légua começa a mata até o Pomba. No que ainda tem capões
produz os cereais da terra e excelentes batatas. Bom pasto para vacas de 14
garrafas por dia de excelente leite. O Gentil criou belos capados. O carneiro
engorda muito e referiu-me que mandando vir um de longe morreu em caminho de
cansaço por causa da gordura.
Depois
de jantar dei um passeio até o alto do morro fronteiro onde a vista deste
arraialzinho do Gentil e seus trabalhadores da empreitada de obras da estrada de
ferro é bonitinha. O lugar chama-se Rincão por causa de dois riachos que se reúnem.
Iluminação bem arranjada. Conversa com Ewbank que chamou minha atenção para
o telégrafo provincial de Carandaí até Ouro Preto.
29 de
março de 1881 (terça feira)
- Dormi bem. Saída às 6 h.
7
h Carandaí na distância de 6 km. 2 ½ pelo leito da estrada de ferro. A povoação
tem já bastantes casas e uma capelinha no morro. Vi passando duas boticas. Começa
o meu caminho; mas agora muito transitável. Conversei em caminho com um Coimbra
homem de boa cara que já tem por ano 50 crias muares, os jumentos e as éguas são
da província. Deu-me diversas informações a respeito da criação. Vende mula
de primeiro serviço a 70 ou 80$000. O capim melado é o melhor pasto.
Alto
das Taipas às 9 h. Bela vista para o lado de Barbacena do alto do Mandú para a
esquerda aonde fui. À direita há um morro de cujo cimo descobre-se Barbacena.
Antes de subir a serra das Taipas há bastantes árvores junto ao ribeirão
desse nome. A fazenda foi do tio do Lima Duarte 017. A estrada de
ferro procura uma quebrada - para leste direita da serra das Taipas. Antes de
chegar a esta ficam à esquerda águas do Rio Grande e por detrás de montanhas
à direita as origens do Piranga afluente do Doce 018. Antes de
chegar à casa de Filipe (Engenho), vi um arrozal; há também milharais.
Às
11 ao montar soltou-se a mola do estribo e caí; pôs-se outro. O chapéu de sol
embaraçou-se nos ramos de uma árvore, o cavalo algum tanto arisco empinou-se,
porém pude segurar-me bem. Contudo passei para uma besta.
O
engenho que deu lugar ao lugar [sic]
fica a pouca distância, é ou era de um Pedro Tavares e de cana que dá bem nas
encostas onde não cai geada. A vista ao descer para o Filipe é muito bela.
Descobre-se ao longe a serra do Ouro Branco. Esqueceu-me de dizer que o Coimbra
referiu-me que só em mulas de cruzamento de jumento com égua vi algumas
emprenhar; também poucas vezes o cavalo cobre a jumenta. Um jumento cobre 60 éguas
durante alguns meses do ano.
Encontramos
carros de 8 juntas de bois que vinham de Sto. Amaro e Ouro Preto. Cobra cada um
de Barbacena a Ouro Preto de 80 a 120$000. Gastam 7 a 8 dias. O sal depois da
estrada de ferro tem baixado muito de preço.
Subiram-se
bastante montes altos. O caminho para liteira é mesmo perigoso em poucos
lugares. O ribeirão do inferno assim chamado por causa dos atoleiros pelos
tropeiros está agora muito transitável.
Do
Alto da Bandeirinha já se avistam casas de Queluz. Parou-se em alguns lugares
por causa da liteira. O tempo das pequenas paradas e o do almoço andariam por
menos de duas horas. O coronel Pereira 019 apontou-me suas terras do
ribeirão do Inferno e Queluz. Possui outras fazendas que dão-lhe 50 crias de
mulas e 100 de poldros ao ano. Antes de Queluz atravessa-se o ribeirão das
bananeiras onde não vi nenhuma. Ouvi falar também do alto da Paraopeba de onde
se goza de vista extensa e bela e da ponte deste rio que ainda não é navegável
para canoas nessa altura. A várzea por onde serpeia o Bananeiras é bonita
assim como a entrada em Queluz por um novo caminho que se fez seguindo o alto do
morro. No fundo da cidade e fim de uma subida está a igrejinha de Sto. Antônio
e no fundo alteia-se a serra do Ouro Branco coroada de nuvens douradas pelo sol
que se punha do lado oposto. O aspecto da cidade é mais pitoresco que o de
Barbacena.
Descansei
um pouco conversando com a família de Washington 020 filho do
coronel Pereira, e saí para ver aulas que são duas - agradando-me a de
meninos, cadeia bom edifício por acabar internamente; porém onde falta quase
tudo, não tendo os soldados da polícia nem baionetas nem sabres-baionetas.
Câmara
Municipal que se acabou de arranjar hoje - bonita fachada a que não corresponde
o resto - puseram as armas do Brasil dentro do antigo escudo português que
quiseram aproveitar - e voltei para casa.
Apareceu
o violeiro - fazem-se aqui muitas violas - a que veio tinha caixa de pinho e braço
de jacarandá, sendo os embutidos de cabiúna. O rapaz tocou bem viola e melhor
violão também feito aqui. As ruas de Queluz não são de fácil trânsito
sobretudo de noite. Antes de ouvir o violeiro houve o Te Deum na matriz 021.
Arranjaram-no sofrivelmente.
Na
capela-mor há pinturas que talvez não sejam más, porém a falta de luz não
me permitiu vê-las bem.
Conversei
com a mulher do Washington Pereira, filha de Luiz Antônio Barbosa 022,
que lembrou-me tê-la eu interrogado num colégio de Niterói.
30 de
março de 1881 (4a fa) - Partida às
6 h. Carreiras - bonita posição de vasto horizonte para leste e sobretudo
oeste.
Encosta
a uma tranqueira estava uma linda rapariga [sic]
com sua saia e camisa revelando formas elegantes. Dava-lhe muita graça o lenço
branco de pontas pendentes atado na cabeça.
O
caminho é bom porém muito montanhoso. Passam-se diversos ribeirões, havendo
uma ponte solidamente construída, todas as águas do Paraopeba. Varginha.
Casa
onde se reuniram os inconfidentes. Pertencia então a um pedreiro de nome João
da Costa. Vi a mesa e banco corridos, de encosto onde se assentavam. São de
Massaranduba e estão colocados na varanda 023. Reparando que não
houvessem conversado no interior da casa disse-me o dono dela que havia vedetas
para avistá-los.
Atravessada
a ponte do ribeirão da Varginha entra-se no município de Ouro Preto. Chegada
à casa do Sperling 024 cuja mulher é sobrinha do Sepetiba
(Aureliano) 025 perto do arraial de Ouro Branco às 10 h. Vieram
encontrar-me a caminho Gorceix 026 e outros. Gorceix já está um
verdadeiro mineiro e fala corretamente português.
Almoço
onde conversei sobretudo com Gorceix 027 que já conhece as
principais pessoas de Minas, e segui às 11. Chuva forte, segundo dissera
Gorceix, consultando o seu aneróide, que traz como relógio, desde o arraial do
Ouro Branco que é pequeno com sua igreja que não parece feia de fora até
mesmo depois de galgada a serra, que tem belos pontos de vista. Gorceix ia-me
mostrando as diversas rochas quase todas de xistos micáceos e cuja inclinação
é N.N.O. Conversamos muito de geologia e mineralogia. A descida da serra do
Ouro Branco é mais pitoresca do que a subida. Ao chegar ao cimo formava-se
escura trovoada do lado da subida.
Aproximando-se
do arraial do Itatiaia vi uma papuda. Monsenhor José Augusto 028
contou-me que na freguesia do Jacaré de que foi vigário até as crianças
nasciam de papo 029, que chamam pescoço - reparando em quem não
tem pescoço. Também me disse que indo pregar, um raio matou-lhe a besta
deixando desacordado e depois 8 dias sem poder articular palavra e com um sinal
numa das fontes onde sentira como uma pancada o qual durou-lhe 2 anos.
A
subida do Itatiaia com penhascos é muito pitoresca. O caminho para lá do alto
também agradou-me bastante. Às 4 chegava a Falcão onde havia uma caleça onde
entrei e troles. A descida para Ouro Preto parece a de Petrópolis. Vieram
muitos cavaleiros a meu encontro e entre eles Pedro de Alcântara Feu, afilhado
meu que batizei em 1840 ou 41, filho do Feu do 1º de cavalaria 030.
Às
4 h 20’ passava por defronte da casa de D. Felicidade 031 e às 5
½ chegada a Ouro Preto cuja vista encantou-me. Apareceu-me na imaginação como
Edimburgo. A estrada que margeia o ribeirão do Carmo que atravessa em parte uma
espécie de túnel é lindíssima. A caleça custou-lhe a subir por estas ruas
de aspecto tão original, e temia que se pisasse alguém pois havia imenso povo
e cordialíssimo acolhimento. Enfim alcancei o alto do palácio, mas tive de
apear-me e subir ainda um pouco. Aí encontrei vice-presidente e bispo 032.
O
palácio é de construção muito característica. Parece uma fortaleza e até
tem guaritas. Defronte levanta-se a bela cadeia, cuja iluminação de copos de
cores e luz elétrica logo que anoiteceu era lindíssima 033.
Recebi
algumas pessoas das 7 às 9 no belo salão do palácio que tem excelentes
acomodações.
Recolhi-me
às 9 e pouco li. Desde ontem que vejo Congonha do campo e colhi um ramo
florido. Vi hoje a Canela de ema, planta que se acende a modo de vela.
31 de
março de 1881 (5a fa)
- Ontem houve fogo de artifício que não foi
brilhante e soltaram um balão defronte do palácio.
Esta
manhã tomei um bom banho frio num banheiro de pedra bem arranjado no fundo do
palácio. Quis ler a inscrição mas só pude distinguir - Palmensis Comes 1812 034.
Cerca
de 7 ½ saí. Dei uma volta pela cidade entrando nas igrejas - do Carmo de cujo
interior gostei, havendo na sacristia um lavatório de pedra um pouco azulada
cuja escultura revela talento 035, e sobre a porta escultura do mesmo
gênero que não me agradam tanto, - e da matriz cuja forma parece antes do
teatro e onde conversei com o cura Sta. Ana 036 cuja fisionomia
predispôs-me em seu favor.
Do
adro do Carmo a vista para o lado das cabeças é muito pitoresca. As ladeiras são
íngremes e mal calçadas.
9
½ Escola de Minas. Arco original com forma de martinete e instrumentos de
mineiro. Gorceix deu sua lição durante uma hora fazendo 2 estudantes Luís
Barbosa e Paulo reconhecer rochas que estavam sobre a mesa, mostrando ambos
sobretudo muita aptidão. Percorri a escola que parece-me muito bem montada.
Às
10 ½ voltei para almoçar. Por causa da demora da segunda liteira só muito
depois do meio dia estava na matriz para o Te Deum. A música não foi muito
ruim. O cônego Ottoni 037 pregou bem embora metesse alguma
literatura profana no sermão e parece-me ouvir-lhe falar dos carvalhos
sob os quais balançavam-se os caboclos nas suas redes.
Daí
fomos ao Rosário, que só se distingue por sua arquitetura externa. Corpo da
igreja oval; Carmo onde disseram-me que o lavatório era obra do Aleijadinho e já
com chuva de trovoada a S. Francisco de Assis cuja escultura do Santo em êxtase
sobre a porta, púlpitos - principalmente o baixo-relevo da tempestade do lago
de Tiberíades - e figuras do teto da capela-mor - tudo obra do Aleijadinho - são
notáveis. O teto do corpo da igreja foi pintado pelo tenente-coronel Ataíde 038
amigo do Paula Cândido 039. Não pensava que fosse capaz de tanto,
pois a pintura revela bastante talento no grupamento das figuras. Referiram-me
que Ataíde fora discípulo da Academia de Belas Artes 040. De um dos
lados da igreja descobre-se no vale a casa de Marília de Dirceu.
Fui
depois à polícia onde falta de estatística criminal e da legislação desde
1878. Há um telefone que se comunica com a cadeia e o palácio. Aí morou o
Ouvidor Tomás Gonzaga e de uma das janelas vêem-se muito bem ao longe as da
casa de Marília. Disseram-me que Gonzaga costumava passear até perto de uma
igreja no alto de uma ladeira onde se deitava a contemplar a casa de Marília.
Enfim
estive na casa da Câmara que é a melhor que tenho visto em minhas viagens.
Reparei somente que não guardam com cuidado os padrões de pesos e medidas.
Prometi dar uma bomba de incêndio à Municipalidade comprometendo-se o
presidente Domingos Magalhães de organizar uma companhia de bombeiros. Nunca se
pensou nisso.
Conferência
de Gorceix no salão da Assembléia, que ficou cheio. Gorceix expôs com talento
as riquezas de Minas, sobretudo a do ferro, cuja quantidade calculou em 81 mil
milhões de toneladas podendo a província tornar-se a fornecedora de aço ao
resto do mundo se por meio de linhito de que se encontram vários depósitos em
Minas se conseguir aceitar diretamente o seu ferro. Gostei de ouvir a exposição
de idéias tão civilizadoras a 80 léguas do Rio de Janeiro de onde felizmente
já começou a irradiar-me o progresso a todo o Brasil.
Recebi
até 9. Conversei bastante com o velho Quintiliano 041 e o Juiz de
Direito Guimarães 042 que não me deram informações satisfatórias
do foro de Ouro Preto. A mãe do deputado Lemos 043 é uma senhora
idosa de fisionomia distinta.
Li
na cama os jornais do Rio até 29. Já deviam ter chegado os de 30 se o correio
é diário como anunciaram e preveniu-me o Buarque 044.
1 de
abril de 1881 (6a fa)
- 6 h banho. Leitura até 7. Visita à cadeia. Edifício bem construído, porém
as prisões inferiores sobretudo uma de galés, verdadeira enxovia; não me
agradaram. Livros em regra. Disse aos presos que mandassem suas petições à
presidência. O chefe de polícia disse que um deles está preso inocentemente
conforme a declaração de que existe certidão do culpado. Aula na cadeia, mas
o ensino não é obrigatório. Os alunos são os mais morigerados e apenas 36,
quando há mais de 300 045. Prisões que não hão de ficar às
escuras fechadas as portas das janelas ou inabitáveis por ventania ou chuva que
entrará pelas grades. Lembrei que pusessem vidraças.
9
-
Lição de Bovet 046 sobre a mineração do ouro. Morro Velho perde
25% do ouro da mina, e Pari 40%. Foi muito interessante a lição. Pedi-lhe
notas para minha visita a Morro Velho.
Gorceix
explicou-me a sua quase crença de que o diamante forma-se em veios onde há
fluoretos dentro dos quatzitos. Mostrou-me pedras que parecem provar isto.
Examinei as coleções de diamantes, ouro, ferro, linhito e grafite, escrevendo
com um pedaço deste 047. As provas agradaram-me sobretudo as de
Augusto Barbosa da Silva que é o melhor estudante de matemática. Gorceix
trabalhou com bateia 048 em cuja fica ouro que ele me mandará.
Liceu.
Casa pequena. Os alunos interrogados agradaram-me.
Escola
Normal. Casinha bonita. Não me desagradou. A professora pareceu-me inteligente.
Aula primária mista casa acanhada. Não me agradou. Há outras aulas que não
pude visitar, porque de uma, ao menos, os alunos retiraram-se à hora habitual.
Perto
do Liceu está a Escola de Farmácia. Poderá ser boa somente pelos professores
que são três - física e botânica - as duas químicas - matéria médica e
terapêutica.
Tesourarias provincial - má casa - onde está também a biblioteca provincial que tem boas obras, porém em geral já antigas e faltando as periódicas em dia - e geral, antiga Casa dos Contos. Bem construída. Aí também está o correio mal acomodado. Vi o lugar da bala do revólver que disparou contra o gerente do Monte Socorro o tesoureiro comprometido por um desfalque de um conto, mas que havia roubado diversas associações. A tesouraria geral carece de alguns reparos e parte do edifício é muito úmida.
Fui
ver a casa de Marília de Dirceu onde se conservam uma cadeira e o cabide na
alcova em que dormia. Cortaram os pinheiros que havia no fundo da pequena chácara.
A capela em ruínas junto à qual se reclinava Gonzaga para contemplar a casa de
Marília tem a invocação das Dores. De uma janela do fundo desta casa
descobre-se a casa da Ouvidoria. Assentei-me perto dela. Voltando entrei na
Igreja matriz de Antônio Dias tem belas proporções internas.
Igreja
de S. Francisco de Paula - Lindíssima vista do adro para a banda da cidade e da
ladeira das cabeças. Creio que foi deste lugar que se pintou o quadro que
possuo 049. Antes de ter ido lá visitei o quartel de polícia. Casa
boa porém até os soldados dormem em casa de pessoas da família.
Hospital
da Misericórdia. Pequeno, em parte mal situado, porém pareceu bem tratado.
Jantar e recepção.
Entreguei
3 cartas de alforria a 3 mulheres por intermédio do monsenhor José Augusto e
do cura Sta. Ana, e soube que a baronesa 050 que veio com a família
alforriou seus escravos que têm servido na liteira da Imperatriz.
Está aí portanto “ipsis literis” o rol onde S.M.I., de próprio punho ia anotando suas viagens e descrevendo os lugares por onde passava. Nos anos de 1879 a 1886 o Imperador viajou por outras Províncias do país. Em apenas uma oportunidade nesse referido ano consta sua passagem por Mogi Mirim e assim se expressa a imprensa local: “ 26 de Outubro de 1886,chegam a cidade, pela terceira vez o Imperador D. Pedro II e sua Augusta consorte. D.Pedro II, visitando as igrejas, revela-se contra os enterramentos intra e extra muros das mesmas, declarando que todos devem ser inumados no Cemitério Municipal.
Se existiu em algum momento, da história a oportunidade de se revelar as provas (se escondidas) da estada de D. Pedro II em nossa cidade este teria sido o momento exato. Tudo o que vier depois descaracteriza diminui e não confere louros a quem quer que seja. Mesmo não acreditando que tal prova exista ainda permanecerei de plantão e à postos no sentido até mesmo de contrariar-me e render-me às evidências em encontrando-a.
Neste final de matéria quero agradecer sinceramente a Dra. Nilsa Cantoni, advogada e militante das causas históricas e genealógicas e nosso país. Natural de Leopoldina Dra. Nilsa tem residência em Petrópolis onde não mediu esforços para suprir-me atenciosa e pacientemente dos elementos necessários à publicação desta matéria. Da mesma forma agradeço ao sr. Celso da Silva que enviou-me a foto anexa da “A Baroneza”, primeira locomotiva a trafegar no Brasil e que hoje se encontra recolhida nas oficinas da R.F.F.S.A. em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Esta foto foi-me enviada através da Internet e foi retirada do livro coleção GBA. Publicidade, São Paulo.(“Lembranças do Trem de Ferro” – Autoria: Pietro Maria Bardi
D.PEDRO II EM ITAPIRA? - FINAL
Estamos finalizando esta matéria com a convicção de que perscrutamos os labitínticos caminhos da dúvida e da certeza. Não encontramos na dúvida elementos de importância que justifiquem mantermo-nos na crença da fantasia enquanto na pacienciosa busca da certeza encontramos subsídios para julgá-la procedente nas bases de sua verdade.
Ao longo de quase 70 anos persistiu nesse hiato histórico de Itapira a interrogação dessa pretensa viagem de D.Pedro II a nossa Penha do Rio do Peixe do século passado. Com isso as mais variadas versões ora afirmavam, ora negavam tal acontecimento, sem contudo basear-se em fundamentos comprobatórios. Debalde tentamos trazer a tona as provas concludentes dessa premissa. E dessa maneira tornamos os pseudo- detentores dessas provas e histórias, desacreditados nas suas afirmações já que não se expõem na apresentação das mesmas. Esgotados portanto o processo de busca mais expressiva do que esta, conclamo as vozes contrárias para que num último laivo de lucidez e amor pelas causas históricas que em sendo possuidores dessas provas apresentem-nas, mesmo porque as até agora conhecidas e apresentadas não se sustentam. Somente assim poderão se confrontar na posteridade com a próprio óbvio de seus anseios, ou seja a notoriedade. Em não se pronunciando para dirimir tal fato histórico é conclusivo aceitar-se os argumentos aqui expostos sem maiores delongas.
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