“CHICO PITADA”

Francisco (Pitada) de Oliveira
"Chico Pitada"
Sobre a história de nossa cidade e da tradicional festa de São Benedito já discorreram sobejamente nossos historiadores. No entanto revendo mais profundamente os aspectos que nortearam a fundação da Igreja de São Benedito e suas raízes tradicionais encontrei dois dados de extrema importância que nos dão condições de acrescentar e regredir em alguns anos a suas verdadeiras origens.
A HISTORIA CONTADA - Relembramos dessa maneira que Giovanni Baptista Trani,(1860 – 1944) imigrante italiano, aportou no Rio de Janeiro em 1877.Em 1880 já se encontrava em Itapira e foi tronco da família Trani em nossa cidade. Casado que foi por duas vezes, respectivamente com duas netas do co-fundador da cidade João Gonçalves de Morais, era possuidor de uma vasta área de terras situada pelos lados do bairro da Santa Cruz e São Benedito. Muito religioso, católico e dotado de excelente coração e fé cristã, resolve através de escritura particular de 25 de Março de 1897 doar uma parte de suas terras localizadas ali naqueles subúrbios de Itapira à Irmandade de São Benedito, representada pela mesa administrativa criada especificamente para tratar das questões religiosas referentes a esse santo. Dessa maneira de posse do terreno doado, mais o santo padroeiro e a já existente Irmandade só restava agora a construção do templo. Textualmente podemos reproduzir aqui o que já escreveu Jácomo Mandatto em seu livro “relíquias da terra natal” sobre esse episódio: “...tratou-se de conseguir meios para a construção da Capela para onde, com a autorização do Vigário Geral de São Paulo, Monsenhor Antonio Pereira Reimão, foi doada à referida Capela a imagem de São Benedito que se encontrava na Matriz” e prossegue num relato de outro cronista que “aos 8 de Abril de 1906, a irmandade resolveu ceder à “Sociedade 13 de Maio” de festejos, a Capela e as esmolas postas no altar( !!!...) (sic)...”
A HISTORIA DE FATO - A Irmandade de São Benedito já existia anteriormente e seu santo padroeiro era cultuado na Igreja Matriz de N.S. da Penha. Dessa maneira todos os atos de fé, óbolos, oferendas e tudo o mais eram dirigidos ao altar de São Benedito na Igreja Matriz. Durante muitos anos assim procederam seus fieis e adoradores. Oficialmente a Irmandade passou a existir a partir da doação de terras. Apenas que muito antes dessa doação feita em 1897 os fiéis já haviam se mobilizado e as custas de muito sacrifício e abnegação e construíram uma capelinha para o abrigo de São Benedito. E é a partir daí que novos dados preenchem uma lacuna histórica e muda um pouco a conceituação e o enfoque que até hoje se deu a essas questões. Muitos personagens esquecidos em detrimento da lembrança de outros com maior peso político fizeram de nossa história um caldo de cultura meio ácido. A omissão, a ignorância e até o descaso não revolveram sob alguns aspectos a poeira dos fatos e não procuraram alcançar o lodo do fundo onde jazem as verdadeiras origens de nosso passado. Histórias de meio de caminho sequestram fatos e permitem apor equívocos em julgamentos preconcebidos.
Neste caso em particular, após fazer um revisão sobre a história da Igreja de São Benedito, observei a existência de um hiato que vai da formação da Irmandade de São Benedito (quando a imagem ainda se encontrava no interior da Igreja Matriz de N.S. da Penha) até a doação do terreno para a construção da primeira Capela ( o texto reproduzido acima não diz Igreja).Era uma Capela portanto.
Muito bem e é nesse hiato onde estão realmente as verdadeiras causas e os verdadeiros nomes que com seu altruísmo, fé e abnegação permitiram a fundação posteriormente em 1906 da Igreja de São Benedito onde ela se situa atualmente.
“CHICO PITADA” - Vamos aos fatos: Nesse momento entra em cena nada mais nada menos que o personagem “Chico Pitada”, nascido Francisco “Pitada” de Oliveira e já tão já brilhantemente referido pela nossa escritora Odete Coppos em seu “ O Livro da Festa do “13” e das Congadas de Itapira”. Nesta sua obra Odete passeia pela genealogia do nosso personagem e lhe confere um lugar importantíssimo no contexto histórico da Igreja de São Benedito.
Resumo do relato de Odete Coppos
(O livro da Festa do "13" e das Congadas de Itapira)
"...Francisco Pitada de Oliveira era casado com Ana Maria e o casal teve 5 filhos, sendo o caçula o pai de Maria de Lourdes, consumada a libetação, a família baldeou-se para a Fazenda São Joaquim, então de propriedade de Joãozinho Bento e Dona Chiquinha, Algum tempo mais tarde fiou-se na cidade. Pelos cálculos aproximados Chico Pitada nasceu em 1843, porque seu registro de falecimento é de 1923, com 80 anos.Conta sua neta que ele, como membro da Irmandade de São Benedito tinha um incumbência de tirar esmolas par a festa do 13 e a construção da primitiva capelinha de São Benedito; que demorava-se semanas, percorrendo sítios e fazendas, com um cofre que tinha o formato de oratório e a capa de irmão de Opa; que quando o filho caçula casou-se, ele, com um carrinho de mão andava pelas ruas da cidade, recolhendo os pedaços de tijolos encontrados e com os pedaços ia construindo uma casinha de quatro cômodos onde passou a morar o Benedito Francisco e sua mulher Francisca Romana.
O “João do Norte”, conhecido articulista do jornal “Cidade de Itapira”, diz que o Anterão foi filho do Chico Pitada; que era um negro elegante, de boa altura, e vestia-se caprichadamente; mas que tinha seus deslizes...certas atrapalhadas...Indolente e outras coisitas mais.Um dia o Anterão desapareceu, lá por volta de 1924, no quatriênio do Governo Artur Bernardes e foi num destes que o nosso conterrâneo Anterão desapareceu. Seu desaparecimento foi sentido, afinal ele era estimado e popular nas rodas violeiras e seresteiras, presente incorrigível em todas as serestas do seu tempo e um tocador de violão de “mão cheia”! Sobre o Anterão elaboramos história que será a próxima matéria desta página. Conforme nossa escritora Odete Coppos, “Chico Pitada” era um remanescente escravo pós libertação.

Ex-escravos que, após a Abolição, sem ter onde trabalhar, perambulavam
pelas ruas vivendo na mendicância. Foto do fim do século XIX.
São contemporâneos de "Chico Pitada".
Diz que após a Abolição da Escravatura os negros se agregaram em grupos e que a congada em Itapira surgiu de um desses grupos. O “Chico Pitada”, o Thomaz, o Felipe pai do Henricão, e avô da Fia, o Zé Gabriel, o Sebastião Elizeu, pai da Josefa Elizeu da Silva. O Benedito Francisco de Oliveira, pai da princesa Maria de Lourdes, caixeiro por muitos anos e filho do Chico Pitada.Todos esses nomes citados incentivaram e ordenaram a Congada de Embaixada nos seus primeiros ensaios.Sucessivamente foram surgindo o Lázaro Cândido, Antonio Custódio, Benedito Lucio, Paulino, Benedito Francisco, Nabor Honório e outros. Muitas homenagens foram feitas a alguns desses vultos negros..."

Primeiro Desfile Folclórico Histórico em 12 de maio de 1983
Odete conta que conforme relatos do “Dito Lúcio”, um antigo “congadeiro” e Maria de Lourdes, uma das netas de “Chico Pitada” esse ex escravo muito devoto de São Benedito saía pelas ruas da cidade e pelos sítios e fazendas à cata de esmolas pró fundação da capelinha do seu santo protetor.
O que chamava a atenção era o fato de que o nosso esmoler, saia a busca desses donativos vestido com uma Opa, ou uma capa preta, vestimenta essa, aposta por sobre os ombros que caracterizava o uniforme da irmandade de São Benedito. Se não bastasse isso “Chico Pitada” carregava dependurado no pescoço e apoiado no peito um oratório de madeira, por ele mesmo construído. Nesse oratório com portinha envidraçada e uma gavetinha onde se depositavam as esmolas ,ficava a imagem do santo padroeiro.
Durante algum tempo “Chico Pitada” arrecadou além de dinheiro, tijolos, restos de materiais de construção, e madeira, com o intuito de construir uma pequena capelinha que abrigasse o santo de suas orações.
Pois bem esse preâmbulo serviu-nos apenas para conhecer esse personagem tão esquecido de nossa história e saber de suas andanças e de seus esforços no sentido de ver seu sonho e o da Irmandade realizados. Pelos registros e informações “Chico Pitada“ teria nascido em 1843 e falecido em 1923.Como veremos mais abaixo tal provável data de nascimento mereceu, com algumas ressalvas, um comentário a parte.
LACUNA HISTÓRICA
RELATO DE “DITO LÚCIO" - Já existiam o santo padroeiro, e a Irmandade; faltava agora a capela que pudesse abrigar São Benedito Como vimos no capítulo acima o nosso personagem “Chico Pitada”, com sua extrema devoção já havia arrematado dinheiro e bens materiais para a conclusão desses objetivos. É justamente aquí que entra uma ressalva e se preenche a lacuna histórica que havia me referido acima. Para a compreensão do raciocínio é necessário que reportemos a dois fatos esclarecedores. Um baseado num relato e outro numa prova insofismável, senão vejamos:
Voltemos ao relato mais completo do “Dito Lúcio”, registrado pela Odete Coppos em sua obra já referida:..” os iscravo erguero uma capelinha de tijolo e o “Chico Pitada”,qui era iscravo tamem, tirava ismola, indo di porta in porta c’o oratório di gavetinha prá recoiê o dinhero;quano a capelinha já tava pronta,puzero a image di São Binidito qui era piquena;o primero foi o Padre Agostinho, isso no tempo do Dotô Firmino, qui era o nosso libertadô”.
Esse relato do “Dito Lúcio” coloca o “Chico Pitada” como contemporâneo e com muito mais idade do que o Delegado Firmino falecido em 1888.Pelos cálculos vistos acima “Chico” teria nascido em 1843.Teria nessa ocasião 45 anos e não poderia estar com a aparência da foto aqui apresentada porque nesta está visivelmente mais envelhecido beirando provavelmente seus 75 anos. Ou Chico era mais velho realmente na época do delegado Firmino e portanto já tinha essa aparência e a provável data de seu nascimento também seja anterior a 1843, ou há uma discordância textual nesse relato do “Dito Lúcio”. Em se supondo correta tal informação sobre “Chico Pitada”, isto é , de que realmente ele tenha sido contemporâneo do delegado Joaquim Firmino, então ele seria mais velho em pelo menos 20 anos, tendo nascido entre 1823 e 1830 e falecido não com 80 anos ,conforme a certidão de óbito (sempre com muitos erros cronológicos) mencionada no livro de Odete, mas sim com seus quase 100 anos. A foto anexa o revela como sendo idoso, com aparência entre 75 e 80 anos de idade.Todo esse raciocínio sobre datas e a idade do “Chico Pitada” tem muito a ver com o prosseguimento dessa história.
Vamos então ao segundo fato histórico que juntamente com os dados acima podem mudar os nossos conceitos sobre origens e fundações relacionados com a história, especifica da Igreja de São Benedito. Tais evidências as vezes se escondem de nossas vistas e após uma revisão mais acurada redimensionamos nossos conhecimentos e ampliamos nossos horizontes de cujos misteres nos ocupamos.
A PRIMITIVA CAPELINHA DA “SANTA CRUZ” – Talvez tenha passado “batido” (salvo engano) o fato de ter existido essa capelinha cuja localização era bem ao centro onde hoje é a Rua Saldanha Marinho. É bem provável que tal capelinha ficasse alí entre o ESO e a antiga linha da Mogiana, nas imediações onde hoje está o IESI, antigo CVT ou talvez um pouco mais acima. Temos razões para crer que a construção dessa capelinha seja bem anterior a 1896 porque em uma sessão da Câmara Municipal do dia 18 de Janeiro desse ano, aquela casa de leis, “resolveu impedir a reforma da capela “Santa Cruz”, que estava em RUÍNA (o grifo é meu), porquanto o templo – localizado quase ao centro da Rua Saldanha Marinho – impedia o trânsito nessa via pública”. Esse comentário está registrado a página 67 do “Álbum de Itapira de 1935”,escrito por Joao Netto Caldeira. O que chama a atenção é que apenas 1 ano após essa decisão da Câmara ou seja em 25 de Março de 1897, Giovanni Baptista Trani resolve doar uma parte de suas terras que abrangiam praticamente as mesmas áreas; tanto o local onde se situava a capelinha da “Santa Cruz “ quanto o local onde foi construída a Igreja de São Benedito em 1906.
Ora estamos diante de um entrave cronológico, porque conforme sabemos através da história ,foi organizada concomitante e paralelamente mente em 1906 a “Sociedade 13 de Maio”, “que tinha por fim realizar festejos, promover leilões e administrar as ESMOLAS (o grifo é meu) deixadas pelos fiéis no altar da Igreja Matriz e que eram dedicadas a São Benedito. Isso em 1906,quer dizer ainda não existia a capela de São Benedito. Então “Chico Pitada” que viveu na época do padre Agostinho e do delegado Firmino portanto em 1888, não poderia estar angariando esmolas com seu oratório de gavetinha para a construção de uma capelinha que só seria construída 18 anos após, isto é, em 1906. Ou o relato do “Dito Lúcio” esta defasado em 18 anos ou realmente o “Chico Pitada” foi o precursor dos fundadores da Igreja de São Benedito.
E se essa premissa estiver correta então a capelinha, construída com as esmolas deixadas no altar e também ofertadas pelo “Chico Pitada”, através de suas andanças à cata de donativos, não foi essa que se localiza alí no largo de São Benedito. Poderia, isso sim, ser aquela capelinha da “Santa Cruz” acima referida.
Como assim? Porque coincidentemente a sua demolição em 1896 concordou com a doação do terreno para a construção da outra em 1897.E porque, além disso, diz-se no texto terem sido ele, o “Chico Pitada” e os “iscravo” que construiram a referida capelinha sendo que a outra foi construida pela Sociedade 13 de Maio. E ainda porque a localização de ambas: capelinha de Santa Cruz e Capelinha de São Benedito ficavam nas mesmas terras de Giovanni Baptista Trani.
Finalmente porque no relato contado, mais abaixo, por Roque Rodrigues, (*1827 +1928) um dos primeiros moradores de Itapira, ao seu neto Valter da Silva existem evidências textuais bastante reveladoras.(Ver mais abaixo no item LEMBRANÇAS, no terceiro parágrafo)
Se tal premissa não estiver correta, então “Chico Pitada” não é tão antigo assim; não angariou fundos com seu oratório de gavetinha nessa época mas sim nos idos de 1904 a 1906 mesmo!
Da mesma forma “Dito Lúcio se equivocou em seu relato misturando a época em que viveram Padre Agostinho e o delegado Firmino com a época em que viveu o nosso “Chico”; e também que a capelinha demolida em 1896 pela Prefeitura não tenha nada a ver com essa história de São Benedito.
Se tudo realmente não coadunar resta-nos então uma pergunta: Que capelinha seria essa e construída por quem cuja construção em ruínas dava mostra de ser muito antiga já em 1897?
Sabemos que o nome da rua Saldanha Marinho, onde se localizava tal capelinha, foi deliberado pela Câmara Municipal em 9 de Julho de 1882 (Dic. de Ruas publ. em Suplemento Especial no Jornal Folha de Itapira, por Jacomo Mandato, página 43). Tal data coincidentemente também nos traz quase a mesma diferença em anos (18 no caso) quando do provável equívoco no relato do “Dito Lúcio” ao referir-se ao “Chico Pitada” como contemporâneo do delegado Joaquim Firmino e do padre Agostinho. Ambos os fatos e momentos históricos se aconteceram na contemporaneidade é razoável se pensar na importância histórica da primitiva capelinha da “Santa Cruz” como sendo a precursora da capelinha de São Benedito e no “Chico Pitada” como sendo o seu principal fundador por tudo o que representou nessa sua empreitada.
Mas perguntarão: e porque essa capelinha levou o nome de “Santa Cruz” e não de São Benedito já naquela época? Porque ainda restava a oficialização da doação da imagem de São Benedito pelas autoridades da Igreja e porque também não havia ainda uma sociedade que administrasse essa representatividade. Isso só foi ocorrer mesmo quando se fundou em 1906 a Sociedade 13 de Maio. E quando a Câmara após ter deliberado a demolição da referida capelinha permitiu que através da doacão do terreno em 1897 por Giovanni Baptista Trani se construísse Igreja oficial.
De qualquer modo, independentemente de se provar isto ou aquilo, o que fica é a intenção pura e simples de um ex escravo que na sua humildade não se limitou ao “mea culpa” e foi a luta. Que a nossa lembrança possa pelo menos dar um lugar justo no contexto histórico-social homenageando-o juntamente com o santo de sua devoção.
LEMBRANÇAS
A primeira festa oficializada de São Benedito que se tem notícia foi realizada, segundo Odete Coppos, no dia 13 de Maio de 1910 pela Irmandade e pela “Sociedade 13 de Maio”. Eram festejos onde principalmente os negros se reuniam em frente a capela e ali sambavam e requebravam os esqueletos ao som dos ritmos africanos. As congadas, como sempre foram chamados esses ritmos e essas danças africanas, varavam a madrugada num batuque surdo e cadenciado permitindo a todos a expressão de sua fé e a sua homenagem a São Benedito, o protetor dos negros. Corria muita aguardente, quentão, pipoca, amendoim, doces e quitudes caseiros além de batata assada e rapadura. Muitos após o cansaço e os comes e bebes refestelavam-se e ali mesmo dormiam protegidos por São Benedito.

A Congada formada por pretos e brancos, é muito antiga e
tradicional atração folclórica da festa de São Benedito
Paulo Fernandes lembrou muito bem quando me contou o seguinte: Que todos os anos no dia 13 último dia da festa de Maio os “congueiros ou congadeiros”, após terem dançado praticamente a noite toda, iam almoçar na casa de uma preta velha chamada Buluta. Cozinheira de mão cheia Buluta era agregada ao casal Sizi Vieira e Comendador Francisco Cintra e morava naquela época a Rua Manuel Pereira, ao lado da antiga fábrica de Copinhos. Quem patrocinava o almoço era a D. Sizi, mas quem enchia a pança dos dançarinos era a Buluta que cozinhava como ninguém. Descobri tempos depois que D. Buluta tinha um filho chamado “Vadão”, (deveria ser Osvaldo), que viera a casar-se com Lídia, uma linda “escurinha” filha adotiva de meu bisavô paterno Antonio de Freitas. Por muito tempo andei atrás dessas referências e num golpe de sorte acabei por descobrir através do Paulo Fernandes tal ligação genealógica. Vadão também tomava conta do Paulo Anastácio, filho do Domingos Anastácio, já que este tinha problemas mentais. Só para lembrar; o Domingos Anastácio foi a pessoa nomeada em 1913 pelo Juiz da época para dar guarda aos móveis e utensílios da polêmica Igreja Brasileira fundada pelo Cônego Amorim naquele começo de século. Odete Coppos em seu jornalzinho “A Mulher” faz uma abordagem sobre esse episódio e ali transcreve “ipsis literis” o documento legal que embasou esse fato histórico.

Menotti Del Picchia, autor do poema "Juca Mulato"
e a capa de seu livro.
Outro fato interessante emergiu da lembrança do sr. Valter da Silva, conhecido pelo vulgo Teté .Homem de cor, acostumado as lides pesadas da lavoura, alto, magro com seus 82 anos em 1995 (data do relato).Seu Valter lembrou que se avo materno Roque Rodrigues havia sido o primeiro rei da congada de Itapira e que a sogra de seu filho Henrique D.Maria Cirineia, havia sido a primeira rainha. Disse ainda que seu avô Roque faleceu em 1928 com 101 anos de idade, que era benzedor de mão cheia e que foi o “Roque” benzedor, citado por Menotti Del Picchia no seu romance “Juca Mulato”. Roque teria nascido, segundo Valter seu neto, em 1827 o que nos autoriza a dizer que esse personagem antológico foi juntamente com o “Chico Pitada” um dos primeiros moradores de Itapira, tendo 7 anos quando da sua fundação em 1820.Sua família era remanescente dos escravos trazidos da África pelos portugueses e que por aqui fixaram suas moradas e criaram suas proles. Continuando seu relato disse que ainda se lembra de quanto seu avô faleceu alguém com certa erudição disse naquele exato momento algo como “Finis Coronat Opus”. Valter tinha 16 anos nessa época e não se lembra se o autor da frase era um padre ou não, mas garante que seu avô Roque era o Roque benzedor mencionado por Menotti Del Picchia. Roque era um ex-escravo, ajudante de tropeiro que habitava por estas paragens há muito tempo e que segundo se dizia fazia umas rezas e benzia muito bem, desde animais, crianças ,mulheres prenhes, picada de cobras e toda sorte de mazelas corriqueiras na época. Ainda conforme Valter seu avô falava frequentemente a respeito de Menotti Del Picchia e que este muitas vezes conversava como ele e lhe fazia muitas perguntas. Falava muito também de uma capelinha existente lá pelos lados do 13 de Maio onde os pretos se reuniam para rezar. Essa capelinha ficava num lugar alto com muito mato e que tinha um trilho estreito por onde os fiéis passavam. Dizia ainda que lembrava do “Chico Pitada” e que ele vivia pedindo esmolas pelas ruas, porque tinha uma divida com São Benedito. Segundo constava ele havia sido curado de um problema na perna; daí a sua devoção e a promessa que fizera a si mesmo de construir uma capelinha para abrigar São Benedito. Diz que ele andava também com uma carriola e que vivia pegando pedaços de tijolos e paus pelas ruas. Segundo sua esposa Orlanda Zanovello as vestes e as coroas de rei e de rainha da primeira congada itapirense foram guardadas até há pouco tempo atrás e que após uma reforma da casa jogaram tudo fora. Lá se foi um pedacinho da história! Mas ficou a prova oral e agora nas lembranças textuais a propor-nos uma consideração importante: "Chico Pitada" e Roque, o benzedor, inspirador de Menotti Del Picchia, em sua famosa obra "Juca Mulato", podem provavelmente serem os mais antigos escravos e moradores de Itapira de antão.
Relatos como estes, embora não contenham muito valor do ponto de vista documental escrito se revestem sobremaneira de uma riqueza de detalhes que permitem pelo menos nos situar cronológica e espacialmente dentro de um raciocínio formal e dedutivo.
Pelo menos lembramos destes personagens quase folclóricos cuja única intenção no caso de "Chico Pitada", era construir um abrigo para o santo de sua devoção.Pelo menos lembramos que perdida no meio das entrelinhas históricas estava a capelinha de “Santa Cruz”, cujas origens se perdeu na noite dos tempo. Ambos “Chico Pitada", esta capelinha e o inspirador Roque podem ter uma origem comum. Tais afirmaçções são apenas relatos, cujo valor sentimental se sobrepõe aos valores dos papeis, carimbos e assinaturas. Que pena e ainda bem que assim é.
Que também pelo menos neste ano onde a festa do “13” mais uma vez nos fará lembrar de nossa infância fique registrada a nossa sincera homenagem a figura inesquecível de “Chico “Pitada” de Oliveira! Valeu, grande, FRANCISCO “PITADA” DE OLIVEIRA!
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