INCÊNDIO DESTRÓI

O TEATRO JOÃO CAETANO

26 de Janeiro de 1856

Há 150 anos

(Sesquicentenário)

Cau Barata

Mal ressurgiu das cinzas, a fênix se vangloriava vitoriosa, desde o último incêndio em agosto de 1851. Mas novamente a antiga maldição que sempre perseguiu o Teatro João Caetano, desde a sua construção, veio a galope, trazendo-lhe nova cenografia, mais vivaz, mais real, transformando-o em um verdadeiro inferno, na madrugada do dia 26.01.1856.

As labaredas iluminaram o céu do Rio de Janeiro, em época em que ainda engatinhava a iluminação a gás, com a recém-instalada Companhia de Gás, à beira do Canal do Mangue.

Antes do primeiro incêndio de 1824

Fase I (1813-1824)

A Praça da Constituição, hoje Tiradentes, possuía  poucos lampiões a óleo de baleia, ainda não substituídos pelos modernos a gás. Já se encontravam apagados, mas não fizeram falta.  O clarão que nascia em uma das suas pontas, com suas altas labaredas, ardeu sobre a praça que, cerca de 60 anos antes, foi palco de outro movimento dos adeptos do inferno, quando por ali, em algum lugar, hoje sobreposto pelo casario que encurtou a praça, foi enforcado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

 

 

 

No entanto, neste trágico dia de 1856, a forca quase levou para suas grossas cordas a cabeça do grande artista João Caetano dos Santos, então diretor e Empresário do Teatro de S. Pedro de Alcântara (atual João Caetano), que ele havia reerguido com os seus próprios recursos. Era o fim de uma trajetória. Funcionava, sob a sua magistral batuta, um elenco com 15 atores, 7 atrizes e 3 bailarinas.  

         João Caetano  

Como se o destino predissesse os acontecimentos, com seu sarcasmo teatral, querendo debochar da tragédia que chegava, três foram as peças encenadas pouco antes do desfecho final:  primeiro, Sonâmbula, com música de Bellini; no dia 13 de janeiro, o drama Casa Maldita, de Bourgain, interpretação do próprio  João Caetano, que criou um papel inteiramente novo; e, finalmente, no dia 26 de janeiro – dia do incêndio, encenava-se  o drama de Mendes Leal - D. Maria de Alencastro, seguindo-se um passo a dois, o dueto O Estudante e a Lavadeira e a farsa Maricota ou os Efeitos da Educação.

Sonâmbula !! Assim ficou a fênix perdida, que,  do seu vôo mais altivo, caiu na desgraça da tragédia de um só ato, e vagou pela Cidade do Rio de Janeiro, sem pouso, sem lar, sem palco, com suas asas tostadas, na busca da alma perdida de João Caetano que, mesmo vivo, parecia estar diante do seu último suspiro.

Mas vamos a Sonâmbula, na visão de uma crítica teatral da época, escrita no domingo, dia 6 de janeiro de 1856:

Tivemos a ressurreição da Sonambula com a Sra. Charton, e um tenor novo, que inesperadamente nos cahiu das nuvens. Tanta bulha com o Mazoleni, tanto dinheiro com o Dufrene, e por fim das ondas, temos um tenor melhor que os sobreditos cujos. Voz sã, notas perceptiveis, algumas comprehensão da parte dramática, mas tudo isso sem o fogo sagrado, sem o enthusiasmo da arte, era a primeira impressão que nos produzio o Sr. João Comelli.

Cremos com tudo desde já que foi uma boa acquisição para o nosso quadro artístico, que tanto carecia de um tenor, depois  do naufrágio de Mazoleni, da negação artística do Sr. Dufrene, e do campo onde foi Troia do Sr. Gentili.

 

        Quadro de Lande representando o Ato II - Quadro II de Sonambula

Pobres Mazoleni e Dufrene, um naufragou, e outro atingiu a negação artística. E pobre Sonâmbula, que estreou em 1831, no teatro Carcamo de Milão, e vagou por vinte e cinco anos, até incendiar-se no Rio de Janeiro. Foi em meados do século XIX, uma das óperas (em três atos) mais populares, uma das prediletas entre os nossos antepassados. Música de Bellini, libreto de Felício Romani, foi eclipsada na era seguinte pelo wagnerismo.

Teve sua chance no Rio de Janeiro e, antes do fatídico incêndio, consagrou a soprano Sra. Charton, e um tenor novo que representava Elvino, um jovem arrendatário, que adormeceu ao lado de Amina, filha adotiva de Teresa, a proprietária do moinho, que os havia prevenido a se retirarem de sua casa, a fim de evitar um encontro com um fantasma que, seja qual tenha sido, acabou por habitar em nosso teatro João Caetano.

 

Atriz Jenny Lind no papel de Amina - Sonambula

Mas voltemos aos últimos dias que antecedem a tragédia.

Casa Maldita !! Aí está um nome adequado para o Teatro João Caetano. Esta foi a expressão corrente dada pelos moradores do Rio de Janeiro, ao hoje Teatro João Caetano, desde a sua construção no princípio do século XIX, por terem sido usadas nele as pedras santas da Catedral do Rio de Janeiro. A construção da sé  teve princípio em 1749, próximo ao hoje Largo de São Francisco, mas havia sido abandonada. Esta história não é minha...Veja o que se escreveu em 1851, quando do segundo incêndio: “prejuízo do povo vio nesse acontecimento, repetição do de 25 de Março de 1824, a realização de uma prophecia que votava á destruição pelo fogo um theatro construído com as pedras de um templo do Senhor.”

 

João Caetano

A profecia espalhou-se pelo século XIX e, mesmo sendo uma casa condenada pelos mais céticos, seu empresário, o ator João Caetano, encenou,  no 13 de Janeiro de 1856, o drama Casa Maldita, de Bourgain.

Luiz Antonio Bourgain [1812-1876], foi professor e escritor francês. Veio muito novo para o Rio de Janeiro, onde constituiu família. Fundou no Rio de Janeiro um colégio de educação. Foi redator de Brasil Artístico, sócio do Conservatório Dramático e da Sociedade Propagadora das Belas Artes. Escreveu dois métodos para aprender o francês e o inglês, além de muitas obras de teatro representadas, a maioria delas, com grande êxito popular.

Possivelmente Bourgain assistiu a todos os acontecimentos, tendo sido um dos espectadores das "casas malditas", a primeira, a sua própria e, a segunda, no que se tornou o então Teatro de São Pedro de Alcântara, na noite do incêndio. Quem sabe até a história deste Teatro não o tenha lhe influenciado no título da  obra ? Seja como for, foi naquele mesmo ano de 1856 que escreveu A Casa Maldita, ou A Mocidade De D. Afonso VI - drama em 4 atos e 5 quadros. Bourgain faleceu vinte anos depois, no Rio de Janeiro. Tinha um toque especial na escolha dos títulos de suas obras, por exemplo: O Amor de um Padre, ou A Inquisição em Roma [1844]; O Barbeiro Importuno; Fernandes Vieira Em Pernambuco Libertado [1843]; Glória e Infortúnio ou A Morte de Camões - [1838]; O Mentiroso; O Noivo Destraído;  A Órfã ou a última Assembléia dos Condes Livres [1845]; Pedro Sem Que Já Teve e Hoje não Tem; A Quinta das Lágrimas; etc.

 

         João Caetano

Deixemos os dramas de Bourgain, e voltemos ao Teatro João Caetano; melhor.... vejamos o que disseram os críticos teatrais do ano de 1856, sobre a Casa Maldicta:

O theatro de S. Pedro de Alcântara não está tão maldito pelos pragueamentos, que não nos tenha podido dar, (atravez de sacrifícios e embaraços) duas peças novas em menos de um mez. No domingo teve lugar a representação do drama original do Sr. Bourgain a Casa Maldicta. O drama agradou e muito. O Sr. Bourgain parece escrever os seus dramas para uma classe especial, e com muito engenho e felicidade cava e explora essa mina de um gosto especial. O drama tem descuidos de linguagem, a phrase pouco estudada, mas em compensação o desenho dos personagens é correcto e fiel.

O nosso distincto artista, o Sr. João Caetano dos Santos; creou um papel inteiramente novo; e foi este personagem uma pedra de toque em que se contrastou o seu genio, e experimentado talento. Não era o trágico arrebatando-nos, nem o typo dramático a fascinar-nos, nem a estridente gargalhada de André a fazer-nos arripiar a expor-nos o quadro de uma molestia fatal, que identifica a riqueza com a miseria, e transforma o homem em cousa.

Especialmente no monologo, em que o usuário tem a maior razão da febre, que o devora pelo seu querido thesouro, e na scena do somnambulismo, o Sr. João Caetano arrebatou e colheu frenéticos e merecidos aplausos.

 

O Sr. Arêas com o talento e veia comica, que o constituem em um artista da primeira plana no seu genero, foi muito bem no papel do creado digno de tal amo.

 

Os de mais artistas foram toleravelmente.

 

O Sr. Bourgain augmentou com este drama mais uma pagina ao seu repertório popular de autor dramático. Se a Casa Maldicta tiver um ou outro côrte na sobejidão do diálogo, mais disvelo e cuidado no lançar e tornear da phrase pode tornar-se este drama o irmão de Pedro Sem.

Finalmente, a noite do incêndio. Precede este, como não poderia deixar de ser, um drama: D. Maria de Alencastro, drama em 3 atos de José da Silva Mendes Leal Júnior [1820-1886], escritor e político português. Foi encenado em benefício da atriz Isabel Maria Nunes.

Mendes Leal Júnior

Ainda na mesma noite, após o drama de Mendes Leal, encenou-se o dueto O Estudante e a Lavadeira e a farsa Maricota ou os Efeitos da Educação. Finalmente, depois de todas as glórias, o velho teatro foi, pela terceira vez, reduzido a escombros pelo violento incêndio, que durou cerca de três horas, perdendo João Caetano todo o material da companhia. Cabe lembrar que nesta ano já havia Carro de Bombeiros, na época uma carroça-pipa puxada por burros, datada de 1856, que ainda hoje existe no museu da corporação, no Rio de Janeiro.

 

Teatro João Caetano em 1835

Fase II (1824-1851)

 

Teatro João Caetano em 1928

Fase III (1854-1928)

Não me resta mais nada para descrever sobre este terrível acontecimento de 150 anos atrás, até mesmo porque naquele dia eu não estava lá... no entanto, recorro aos escritos de quem estava. Logo ao raiar do dia, ainda ardendo de calor as mediações da Praça da Constituição (Tiradentes), labaredas devorando os últimos panos de boca, outrora pintados por Debret, ou por Taunay, as notícias circularam.  

Os habitantes da cidade do Rio de Janeiro despertarão hontem ao clarão de um incendio terrivel.

 

Pela terceira vez acaba de ser consumido pelas chammas o theatro de S. pedro de Alcantara. Esse lindo theatro, que com a elegancia do bom gosto havia, quasi por milagre, renascido como a Phenix do incendio que o devorára em Agosto de 1851, mal estando satisfeitos ainda os empenhos contrahidos para a sua reconstrução, foi de novo victima de igual fatalidade. Delle existem apenas as suas denegridas paredes.

Ante-hontem havia havido espectaculo e conforme a velha usança que quer que os nossos divertimentos theatrais nunca acabem senão alta noite, só depois de 1 hora da manhã pode fechar se o theatro, havendo-se tomado os cuidados de vigilancia que o suppozerão necessarios.

Pouco antes das quatro horas da madrugada, rompeu um fogo tão violento e tão extenso que para logo se compreendeu que impossivel seria atalhado. O dobre dos sinos dava o signal do incendio. Logo depois a multidão enchia a praça da Constituição, e diante do magnifico theatro de S. Pedro assistia a esse terrivel espectaculo, que só para os Neros pode ser uma festa: ás cinco horas restarão só do grande edifício as suas paredes principaes; tudo mais estava consumido.

Tarde se fizera sentir o fogo; e tão prompto foi elle na sua obra de destruição, que nenhum socorro humano, poderia triumphar de sua impetuosidade. Em duas horas achava-se completamente perdido o fructo de sacrificios immensos, a prova de uma notavel força de vontade, e o trabalho incessante de longo meses.

Os guardas interiores, quando derão fé do incendio e pedirão auxílio exterior para extingui-lo, reconhecerão que já de ha muito lavrava, e affirmão que o ponto primeiramente invadido fôra a sala de pintura, por cima do arco que separa o corpo do theatro da sua caixa.

Nessa parte do edifício ninguém por necessidade do serviço tinha entrado na noite do espectáculo. Esta circumstancia, e a quasi absoluta impossibilidade de abafar um incendio que ahi comece, parece autorizar suspeitas de que não fora acidental esse desastre. Todavia, nada ha de mais dificil vereificação do que semelhante hypotese.

A rapidez com que as chammas, logo que forão sentidas se propagarão, não deu tempo a que se salvasse cousa alguma, além do archivo e alguns objectos que estava na sala da tribuna particular de SS. MM. II.

Para difficultar o incendio cumpre notar que sendo illuminado a gaz todo o edificio do theatro, bastava fechar o registro para simultaneamente se extinguirem todas as luzes. Ora, o cuidado especial dessa importante illuminação estava a cargo de um empregado, posto no theatro pela companhia de gaz, de cujo zelo nunca houve a menor queixa. Assim, pois, o incendio não pode provir de uma luz esquecida, como haveria razão de suspeitar, sendo necessário recorrer á conjectura de algum phosphorro, de alguma ponta de charuto atirada a descuido, para ter a explicação desse desastre, se elle foi fortuito.

Entretanto acudirão ao incendio o Sr. ministro de estrangeiros (que, como se sabe, tem estudos de engenharia e de marinha), e com S. Ex. os Srs. chefe de polícia, comandante de permanentes, inspector do arsenal de marinha, director do de guerra,. almirantes francez e inglez, com as bombas e parte da guarnição de seus navios; apresentou-se igualmente uma força de 200 imperiais marinheiros, e grande concurso de sepsctadores.

A bomba do arsenal da marinha e da casa da correção forão as primeiras que chegarão.

Todo esse zelo foi inultil. Quando se deu fé do incendio já não era possível atalha-lo.

Esta gravura de João Caetano data exatamente de 1856.

Foi distribuída durante a reinauguração do Teatro de S. Pedro (hoje Jão Caetano),

após o incêndio de 1856.

A PROFECIA

 

E o povo, vivamente impressionado pela fatalidade que persegue aquelle theatro, ia procurar na origem delle a causa de seus repetidos desastres, e recordando os tempos passados, contava uma história de maldição ou de sinistro presságio.  

Eis-aqui a historia que contava o povo:

 

Quando se pretendeu levantar o theatro de S. joão e foi isso há mais de quarenta annos, forão buscar as pedras destinadas para a Sé, uma casa de santas orações, e com ellas construirão as paredes desse theatro, uma casa de divertimento e de cantos profanos; e os velhos catholicos que tal virão, disserão logo, advindo o futuro:

 

«Mal fadado ha de ser o theatro que tomou para si as pedras Santissima!»

 

Praga, maldição, ou sinistro presagio, três vezes já virão as chammas realizar a predição fatal.

 

Na noite de 25 de Março de 1824 o theatro de S. João brilhava coberto de flores, cheio de luzes e todo entregue às festas e ao enthusiasmo patriotico; acabava de ser jurada a constituição do império, e o Sr. D. Pedro recebia as bençãos e as aclamações do povo; e espectaculo termina emfim; o imperador e a imperatriz retirão-se, e de subito rompe um incendio fuirioso que zomba de todos os esforços que se empregão para vencê-lo, o o theatro de S. João fica reduzido à cinzas.

 

Ninguém soube explicar como tinha começado o fogo, nem onde havia partido; somente os velhos observando as ruinas lembravão-se das pedras do Santissimo.

 

Levantou-se depois no mesmo logar o theatro de S. Pedro que teve uma vida mais longa, chegando até 1851; mas a 9 de Agosto desse anno, de noite, como a 25 de Março de 1824, rebentou um fogo impetuoso, que só deixou em pé as quatro principais paredes.

 

E ainda desta vez a origem e o ponto de partida do incendio forão para todos um mysterio, menos para os velhos do tempo de el-rei, que ainda, apontando para para os montes de cinza, trazião á memória as pedras do Santissimo.

 

O nosso primeiro actor o Sr. João Caetano dos Santos promoveu com paciencia a coragem dignas de todo o apreço a organização de uma empresa, com o auxílio da qual restaurou o theatro de SA. Pedro de Alcantara, cujas portas forão abertas ao publico em 1852; mas quatro annos incompletos apenas se havião passado, e quando talvez, ou muito provavelmente, ainda não estivessem pagos tantos e tão pesados sacrificios feitos para se levar ao cabo obra tão dispensiosa, eis que hontem a cidade disperta ao som do rebate para ver desapparecer de seu seio a seu bello theatyro, devorado pelo mais violento incendio.

 

E, como nas outras vezes, ninguém sabe dizer de que lugar partio o fogo, nem ha quem possa explicar o que lhe deu origem; apenas alguns velhos do outro tempo, qua ainda vivem ouvindo o baque do tecto que se abatera, e vendo os negros fantasmas de fumo que do telhado se erguião, ou as línguas enormes de flammas que rompião pelas janellas, repetirão suspirando: «as pedras do Santíssimo!  

 

 

                 Esta era a história que o povo contava.

                Carlos Eduardo de Almeida Barata

                24 de Janeiro de 2006

 

Reinaugurado, pela 5.ª vez, em 28.06.1930, com uma companhia francesa apresentando a opereta Rose Marie