A
Dinastia Bragança e o Brasil e as raízes da nobreza brasileira
João
IV (1640-1656), Afonso VI (1656-1683), Pedro II (1683-1706), João V
(1706-1750), José (1750-1777), Maria I (1777-1816), João VI (1816-1826).
Autor:
Anibal de Almeida Fernandes, São Paulo,
Janeiro, 2006.
Tese:
a partir do séc. XVI é o dinheiro e não mais a guerra que faz o nobre.
Dinâmica
Social em Portugal:
Nobreza de sangue x Nobreza por concessão do rei
►séc
XIII, já havia em Portugal uma categoria de nobre
genuinamente portuguesa, o fidalgo
(filho d’algo) mercador,
que é uma
conseqüência da origem de Portugal, cujos
primeiros habitantes conhecidos foram os Iberos que
ali viveram há 5.000 anos. Os fenícios povoaram precisamente a costa leste do
Mar Mediterrâneo no séc. XI a.C. Os Celtas e os gregos estabeleceram povoações
entre os sécs. X e VII a.C. respectivamente. Os fenícios de Cartago dominaram
grande parte da península no séc.V a.C. No ano 201 a.C. o Império Romano
derrota Cartago na Segunda Guerra Púnica e domina a península Ibérica
acelerando o seu desenvolvimento sob todos os aspectos
e, todos
eles, com intensa vocação náutica e, além disso, a própria situação geográfica de Portugal, aberto para o oceano Atlântico, era
um forte condicionante para as aventuras marítimas e o rei português é o único
rei, em toda a Europa, a ter como um dos seus títulos, o
de Senhor
do Comércio. Assim sendo, (A. H. Marques), “são numerosos os nobres que realizam operações mercantis no tráfego
com a costa da África e nas cidades de Lisboa e Porto“.
►séc.
XIV,
em
1383, com o término da dinastia de Borgonha, subiu ao trono português o rei João
1o, que inicia a 2a Dinastia Real de Portugal, a
Dinastia de Aviz (1383-1580). Desde o reinado de D. João I, o Mestre d’Aviz, 10o
rei de Portugal de 1383 a 1433, a
nobreza lusitana esteve intimamente associada à atividade mercantil.
►séc.
XVI, com o aumento do poder dos reis na constituição das
monarquias absolutas houve uma mudança substancial de ordem jurídica quando,
pelo discurso dos legistas, legitimou-se a noção da nobreza como uma dignidade
provida pelo rei.. A partir de 1551, o rei de Portugal unificou todas as ordens militares colocando-se
como o Grão Mestre de todas elas. Além disso, o Estado bem constituído implica na perda do
poderio militar que tinham os
senhores feudais e a classe guerreira deixa suas grandes propriedades rurais
para viver próxima ao rei e à sua corte,
deixando sua atividade guerreira, que lhes dava autoridade e independência
quase sem limites, para se inserir numa sociedade, agora, regulada pela auto
contenção e pela rigorosa etiqueta da corte que é a Casa
do Rei, onde ele é o senhor
absoluto
de tudo e tudo pode.
1572
Regras mais brandas para a nobilitação foram estabelecidas neste ano por D.
Sebastião, e os membros da nobreza delas se aproveitam e se utilizam de concessões
régias para as Índias, para onde vão praticar o comércio clandestino, se
enriquecem, e voltam ao reino denegrindo quem se dedicava, de fato, às
atividades mercantis.
Porem um fato novo e marcante se instala: o comercio toma o
lugar da guerra que fizera os nobres de sangue e espada e passa a ser o fato
gerador da nobilitação dos novos nobres do dinheiro.
►séc.
XVII O fundador da dinastia dos Bragança a 3a
Dinastia Real de Portugal foi D. João IV, o Restaurador, (1604-1656), 21o
Rei de Portugal, a 01/12/1640, 8o Duque de Bragança,
após os 60 anos de domínio espanhol (1580-1640). Casado com Ana Luiza
Francisca de Gusmão, filha de João Manoel de Gusmão, 8o duque de
Medina Sidonia. Essa restauração portuguesa saiu muito cara para Portugal que,
para se defender da Espanha, teve que se aliar aos Países
Baixos (Holanda), para quem cede o Ceilão e as Ilhas Molucas e à Inglaterra,
com quem faz 2 tratados, em 1642 e 1661, que privilegiam os produtos ingleses
prejudicando, e muito, o comércio português e, além disso, pelo casamento da
filha de D. João IV com Carlos II da Inglaterra, Portugal dá um enorme dote de
2 milhões de cruzados e mais as regiões de Tanger e Bombaim para a Inglaterra,
ou seja, se desfaz do patrimônio nacional para manter o passadio da corte.
A Corte precisa de dinheiro para se manter e o comércio, e não
apenas o marítimo, era a atividade mais lucrativa e era dominada pelos cristãos
novos que são progressivamente aceitos nos circuitos do Estado e entram na
sociedade da corte, em função da
sua grande riqueza uma vez que houvera uma forte diminuição das rendas dos
nobres de sangue e espada e da própria Coroa
que precisa sempre, e cada vez mais, de renda para sustentar os luxos de sua
representação social.
►séc.
XVIII, a nobreza portuguesa muda significativamente
conforme vemos pelos números abaixo:
►de 1640 até 1706, (66
anos),
foram
criados pela dinastia Bragança: 16 marqueses, 26 condes, 8 viscondes, 4 barões
= 54 titulares.
►(Atenção:
entre 1647 e 1700 (53 anos) foram concedidos 182 títulos e brasões na
Inglaterra).
►D.
João V, 24o rei de Portugal, (1706-1750),
em apenas 8 anos dos 44 anos de seu reinado, cria: 28
marqueses, 8 condes, 16 viscondes, 21 barões, = 73 titulares tendo entre
eles, no dizer de João Armitage, “um enxame de aventureiros necessitados e
sem princípios”.
Também
no Brasil, D. João V,
distribui: 4.048 insígnias de cavaleiros, comendadores e grã cruzes da
Ordem de Cristo, 1.422 comendas da Ordem de São Bento de Aviz e 590
comendas da Ordem de São Tiago aos brasileiros que requeriam e tinham condições
de pagar essas honrarias que distinguia a elite da terra.
Com D. José I, 25o rei de Portugal (1750 a 1777), esta dinâmica
social é impulsionada pelo marquês de Pombal, o grande super ministro que foi
o reconstrutor de Lisboa após o terremoto com o ouro brasileiro (foram 2,5 milhões
de toneladas de ouro e 1 milhão de quilates de brilhantes) e responsável pela
chacina dos Távoras que escandalizou a mais alta nobreza portuguesa, ele tira
Portugal de seu torpor letárgico e consolida a importância da burguesia e da
maçonaria na sociedade portuguesa obtendo delas recursos para manter o fausto
da corte que já acusa a falta do ouro brasileiro, para isso ele permite que a
burguesia passe a integrar a máquina administrativa do Estado Absolutista e
esta burguesia luta animadamente para obter a nobilitação concedida pelo rei num movimento de ascendência social
alimentada pelo dinheiro do comércio. Há uma ampliação tão grande nos quadros da nobreza, por
conta da nobilitação dos grandes comerciantes de atividade mercantil (sempre
de grosso trato, nunca do pequeno comerciante de varejo) que
se pode falar numa diluição da noção
da nobreza em Portugal numa movimentação social que mostrava uma burguesia,
cada vez mais rica e que se tornava nobre e uma nobreza
antiga de sangue e espada, cada vez mais pobre e cheia de dívidas, graças
a uma existência, improdutiva, esbanjadora e de fútil ostentação, que
decaia cada vez mais e que precisava ser amparada e sustentada pela Coroa.
Portanto
é importante destacar que, desde o séc.
XVIII, já havia em Portugal uma distinção entre a nobreza de sangue e espada, e a nova nobreza do dinheiro tendo uma
dualidade nesta dinâmica social onde,
uma parte se apoiava em antigas tradições
centenárias herdadas, que definiam lugares preestabelecidos, régios privilégios,
e que normalizavam todos os gestos e representações e visava uma etiqueta rígida
do teatro do poder para mantê-la e uma nobreza do dinheiro que se
apoiava em atividades produtivas e tinha o
lucro como um dos seus horizontes e que disputa as atenções do rei com a
antiga nobreza e era inteligentemente administrada e manipulada pelo rei que
usufruía desta ambição para manter a Corte financeiramente.
Algumas considerações históricas:
Nuno
Monteiro = “embora as famílias antigas
retivessem as dignidades mais cobiçadas e a parte do leão das doações régias,
a nobreza titulada vinda da rica burguesia, constituía um grupo relativamente
aberto, que aumentava, rapidamente, desde o período pombalino
(1750-1777)”.
Com Dona Maria
I, 26a
Rainha de Portugal (1777-1816), logo no início houve a Viradeira, ou seja, a nobreza de sangue e espada é reabilitada e não
mais
se nobilitam comerciantes, porem a falta de dinheiro fala
mais forte e por causa da guerra contra Napoleão e a necessidade urgente de
fundos, volta-se à nobilitação desenfreada ►tanto é que, nesses
dois períodos (pombalino de D. José I e o de Maria I), “se
criaram quase a metade das casas nobres existentes no Reino“:
►1757: o comércio de grosso trato em si próprio é
declarado uma profissão nobre, necessária e proveitosa e seu exercício em
companhias não impede a nobreza ser hereditária, ao contrário, era mais uma
profissão muito própria para se adquirir nobreza.
►1770: podendo o comerciante instituir
“morgados”, (propriedade e/ou conjunto de bens que passa para o filho mais
velho) que é a estrutura de toda a elite social = manter o patrimônio em família,
preservando o poder e as alianças.
O
Foro de Fidalgo, no ano de 1800, era concedido a quem concorresse
com 25.000 cruzados para as urgências do Estado e o Hábito de Cristo
era dado para quem entrasse com 5.000 cruzados no Real Erário para
cobrir as despesas com a guerra contra Napoleão.
Reflexo
no Brasil
desta dinâmica social portuguesa:
É
muitíssimo importante registrar essa dinâmica social existente no Reino de
Portugal, já a partir do séc. XVIII, pois ela será muito semelhante ao
que se encontrará no Rio de Janeiro de 1808 e esta dinâmica social será o
embrião da nobreza brasileira ao franquear largamente as mercês reais
aos seus vassalos no Brasil, D. João VI,
a grande
figura da Casa de Bragança e a quem o Brasil deve sua existência como Nação,
estará garantindo os 2 tronos para a Casa de Bragança graças ao seu
extraordinário tirocínio que o fará entender a necessidade de manter o filho
no Brasil e lhe dar uma sustentação de súditos leais interessados em manter
uma estrutura de poder que os dignifica e valoriza. Sua 1a concessão
de título nobiliárquico a um membro da elite nativa foi à viúva de Brás
Carneiro Leão, Ana Francisca Rosa Maciel da Costa, feita Baronesa de São
Salvador dos Campos de Goitacazes a 19/12/1812.
D. João VI não inaugurou nenhuma prática
que já não fosse conhecida no reino Português e já se constituía, desde a 2a
metade do séc. XVIII, no principal capital econômico de que dispunha a
monarquia e que era a concessão de títulos nobiliárquicos e lugares nas
ordens militares e religiosas.
Esta prerrogativa real de concessão de títulos
foi fartamente usada pelos reis portugueses como capital para remuneração dos
mais variados serviços. Assim sendo, o fenômeno do abrandamento da qualidade da
nobreza não é um problema brasileiro, pois de há muito, já acontecia
em Portugal.
Esta
verdade histórica invalida de maneira peremptória, o gracejo satírico que
alguns contam e que relata que um nobre português teria dito ser preferível
ser barão em Portugal do que duque no Brasil (?).
A
Europa e a nova nobreza
Podemos
generalizar a situação portuguesa para toda a Europa que, com a grande novidade
do direito legal do rei de conceder títulos de nobreza e o
abrandamento das exigências de progênie para a concessão de tais títulos
intensificada a partir do séc. XVIII por conta da enorme e urgente
necessidade de dinheiro para manter o funcionamento das várias cortes faz o
mundo da nobreza européia se transformar numa agitação contínua de novos
nobres até a ruptura final de 1792, com a abolição da monarquia dos
Bourbons em França e a proclamação da República Francesa, que abole os
privilégios feudais e altera a base centenária da sociedade estamental,
que é regida pela hierarquia das ordens desde a época feudal.
Esta
sociedade estamental é substituída
por uma nova sociedade de classes, na qual a posse dos bens materiais dá
a projeção social e não mais a posse dos títulos de nobreza com antiguidade.
E a nova ordem burguesa absorve a Revolução e assume a liderança
do processo revolucionário chegando finalmente ao poder baseada no
conceito da permanência histórica das elites, que instiga
a sua atuação conciliatória que aparece sempre quando há mudanças de
regimes e/ou formas de governo, visando especificamente que se perpetuem as
mesmas estruturas econômicas e sociais pré-existentes, visando sempre à
manutenção dos melhores privilégios e postos de mando para a burguesia e a
exclusão deliberada de quase toda a população pobre nas decisões importantes
da vida nacional.
A
intenção inicial de uma igualdade fraterna pura e ideal, postulada pela
Revolução Francesa de 1789, dura muito pouco uma vez que Napoleão põe fim ao
processo revolucionário, num golpe contra o Diretório, instalando o Consulado
em 1799 e daí
passando, rapidamente, para o 1o Império
com todos os seus novos nobres que cria às centenas para estruturar o apoio
ao seu Império, ou seja,
num passo de mágica os burgueses ex-revolucionários assumem alegremente o
mesmo teatro de representação estratificada da Corte
recém abolida, só que, agora, comandada principalmente pelo dinheiro, não
mais pela antiguidade do nome.
Esta
situação em França é uma demonstração clara da permanência
histórica das elites européias.
Bandeira
do Império em 1822
Tese:
A nobreza brasileira é conseqüência direta da vinda da Corte Portuguesa para
o Brasil, Um rei Português forte e bem situado em Lisboa,
independente e distante, jamais teria dado liberdade para que uma classe
dirigente do Brasil Colônia ficasse rica e poderosa o suficiente para pleitear
sua inserção no teatro da Corte recebendo títulos nobiliárquicos, porem
tendo cá vindo em fuga, fraco e carente de recursos, foi obrigado a abrir as
portas da Corte, assim sendo, posso tranqüilamente afirmar em face deste
contexto histórico, que
tivemos uma nobreza brasileira graças a Napoleão.
O
nascimento da nobreza brasileira:
D.
Pedro I, para escândalo dos Braganças
era um ferrenho admirador de Napoleão de quem viria a ser cunhado, pois
a Imperatriz Leopoldina é irmã de Maria Luiza que foi a 2a mulher
de Napoleão e mãe do Rei de Roma que, por sua vez, quase se casa em 1826 com
D. Maria filha de D. Pedro I e futura rainha de Portugal. D. Pedro I foi movido
pela mesma necessidade do Corso de apoiar seu regime Imperial nascente
numa classe de grandes do Império criados pela monarquia e ele
rapidamente inicia a profícua nobilitação de brasileiros que sustentaram com
dinheiro e lealdade a dinastia Bragança até 1889 e, a meu ver, a teriam
mantido no poder se houvesse um herdeiro masculino nascido no Brasil para ser o
Pedro III.
Brás
Carneiro Leão (1732-1808), o maior dos comerciantes de grosso trato fluminense.
Ele nasceu em Portugal em 1732, filho de lavradores, aos 16 anos veio para o
Brasil trabalhar na casa de um patrício em troca de casa e comida e
transforma-se no maior dos negociantes de grosso trato do Rio de Janeiro e, já
em 1802, fora agraciado com a Ordem de Cristo e era Cavaleiro da Casa Real e
tinha carta de brasão para si e seus 6 filhos. Na petição para tal carta
apresenta sua árvore genealógica, isenta de mácula (bastardia, crime de lesa
majestade, ofício mecânico, sangue infecto) e declara que todos eles, seus
filhos e ancestrais: (sic) são e forão pessoas nobres das famílias desses
apelidos tractandose todos a Ley da Nobreza com Armas Creados e Creadas etc, etc.
O interessante é que não recorre a documentos, apenas testemunhas (como ele,
comerciantes de grosso trato) para responder à inquirição, as quais
testemunhas, Manuel Pinheiro Guimarães, Fernando Vieira da Silva e José
Antonio da Costa. Sua viúva, Ana Francisca Rosa Maciel da Costa (1757-1832), é
feita Baronesa de São Salvador dos Campos de Goitacazes com grandeza,
em 1823, e é a 1a brasileira/o a receber mercê de título nobiliárquico
do Imperador D. Pedro I, como já fora a 1a nativa a ser nobilitada
por D. João VI em 1812.
Sua
filha, Luisa Rosa Carneiro da Costa (1786-1843), casou-se com Paulo Fernandes
Viana, intendente-geral da polícia e deste casal descendem: Paulo, Conde de São
Simão; Maria, Marquesa de Cunha e Ana Luiza, Duquesa de Caxias.
Seu
filho, José Fernando Carneiro Leão, que tinha o hábito da Ordem de Cristo
desde 1810, será Conde de Vila Nova de São José e uma de suas filhas, casa-se
com o filho de Rodrigo de Souza Coutinho, 1o Conde de Linhares em
1808, que é o exemplo típico da nova nobreza portuguesa iniciada por D. João
V, pois representa a nobilitação de mercadores de grosso trato sem nenhuma
ascendência de linhagem nobre de sangue.
Sua
filha, Ana Carneiro da Costa será a 1a Viscondessa de Cachoeira.
Seu
filho, José Alexandre Carneiro Leão será Visconde de São Salvador de Campos.
Sua
filha, Francisca Mônica Carneiro da Costa será Marquesa de Baependi, e mãe do
Conde de Baependi e do Barão de Juparanã.
Sua
neta, Mariana será Marquesa de Jacarepaguá.
Sua
bisneta Francisca será Viscondessa de Carapebús.
A
Baronesa de São Salvador dos Campos de Goitacazes dá inicio à nobreza
brasileira Imperial, que nos 67 anos de Império se constituiu de 1.211 títulos
assim discriminados:
E
ser nobre no Brasil,
pela tabela de
02/04/1860, custava em contos de réis:
Duque:
2:450$000; Marquês:
2:020$000; Conde:
1:575$000;
Visconde:
1:025$000; Barão: 750$000
E,
além desses valores,
havia ainda, os
seguintes custos adicionais:
Papéis
para a petição: 366$000
Registro do brasão: 170$000
Em 1871, o uso indevido do título, e/ou brasão, foi considerado crime
de estelionato e dava cadeia para os
infratores, inclusive aos filhos que fizessem uso não autorizado por
concessão específica do Imperador.
Foram registrados apenas 238 brasões entre os 1.211 títulos concedidos a
986 titulares, nos 67 anos do Império.
Esta
diferença de 225 é explicada pelos titulares que obtiveram mais que um título.
Essa nobilitação garantia uma boa fonte de renda para a Corte que alem do mais
conseguia a lealdade destes nobres para ampará-la dos acidentes de percurso nos
67 anos de Império que protegeram o Imperador no único país com monarquia
consolidada no Novo Mundo.
Os
títulos foram dados prioritariamente aos fazendeiros e, depois, aos
ocupantes de cargos públicos, aos comerciantes, aos negociantes e, por fim, aos
intelectuais e, por último, aos capitalistas.
Os
homens da colônia não tinham uma sociedade de corte por estarem longe do rei
e, quando ficam frente a frente com o rei e sua corte, ficam arrebatados, pois
tudo se ofuscava ante o inédito da situação, ainda mais aos olhos dos
potentados fluminenses, atraídos pelo brilho da corte que se insere em seu
cotidiano, e eles se submetem às adversidades da vida palaciana, pois os ricos
naturais do Rio de Janeiro querem
tornar-se nobres, ter um título,
freqüentar o trono, por ser este o primeiro, e mais forte, valor da
sociedade pré-capitalista, e colocam as suas bolsas à disposição do rei e,
depois do Imperador, que as usam com sofreguidão repetindo o que já fora feito
em Portugal com os comerciantes desde o séc. XVIII.
Conclusão: comparação entre a nobreza portuguesa e a brasileira e sua particularidade específica
A
estada de D. João VI no Rio permitiu a reorganização política-jurídica do
país e estabeleceu os contatos, mais ou menos amistosos, mais ou menos
conflitantes, entre as 2 facções, a nobreza
migrada e as elites da terra
que era constituída por negociantes de grosso trato, e num maquiavélico jogo
de sedução permite que D. João VI administre a obediência dos migrados e a
ambição da elite da terra, permitindo o seguinte cenário:
►os
migrados com títulos hereditários, sendo alguns centenários, primavam
por alargar e enfatizar as distâncias honoríficas insuperáveis, pois era o único
valor que restara para essa gente saqueada, perseguida, exilada, humilhada, na
total indigência financeira que, ao desembarcar, não tinha nada além
dos títulos, da honra e da etiqueta como os únicos elementos que lhes
conferiam identidade como grupo e podiam qualificá-los no teatro da corte e
torná-los superiores aos da terra disfarçando a indigência da falta de
dinheiro.
►a
elite da terra, que estava engatinhando nos meandros da Corte e sem espaço na
nobreza que cercava o Rei, tinha que ostentar o poderio econômico que poderia
lhes comprar a distinção junto ao Rei que se deixava seduzir com contribuições.
Nesse encontro, nada tranqüilo, essa fusão/tensão conflituosa de interesses
antagônicos foi orquestrada, sabiamente por D. João VI, e depois pelo filho
Imperador, que se valem desta ambição de ser nobre que tem a elite brasileira
para sustentar a Corte no Rio e lançar as bases da permanência de sua
dinastia no Novo Mundo cercando-se de barões, condes e marqueses que tudo devem
ao Senhor coroado que lhes concede esta benesse e o sustenta e protege dos
ventos democráticos que assolavam a Europa pós napoleônica com toda a
lealdade e interesse em perpetuar a Dinastia.
Assim
sendo, ao se analisar a formação da nobreza
portuguesa, depois do séc. XVIII, e compará-la com formação da nobreza brasileira do
sec. XIX se encontram
muitas semelhanças, tanto na qualidade
dos agraciados, como nos caminhos
seguidos para a obtenção das concessões, como nos motivos
de se fazer as concessões nobiliárquicas.
Porém há que se destacar uma
enorme diferença: é
que os títulos nobiliárquicos no Brasil tem uma particularidade específica:
eles nunca foram hereditários eles são ad personam,
ou seja, eram apenas para uso em vida do agraciado e com sua morte o título
retornava ao patrimônio heráldico do Império e o Imperador poderia conceder
este título, a quem escolhesse mesmo que fosse de outra família sem nenhuma
consangüinidade com a anterior. Com isso o Imperador aperfeiçoa o inteligentíssimo
mecanismo de cativar as elites, deixado pelo seu pai, detendo em suas mãos um
formidável poder de barganha para administrar a ambição de seus súditos que
são absolutamente dependentes de seus caprichos na concessão de suas benesses
a cada situação de sucessão familiar o que garante a permanência no Novo
Mundo de uma dinastia européia centenária que só acaba, a meu ver, pela falta
de um herdeiro homem para continuá-la como Pedro III.
RESUMO: Este despretensioso painel de um assunto tão significativo para a sociedade brasileira que tem raiz e passado nos mostra que sempre existiu uma dinâmica social, em todos os tempos, em todas as sociedades, nos 4 cantos do mundo, como é tão bem retratada por Marcel Proust em seu “Em Busca do Tempo Perdido” e por Tomaso de Lampedusa que, de maneira irônica e lapidar, faz o seu personagem Tancredi explicar cinicamente ao príncipe de Salinas, em “O Leopardo”, que:
“tudo
tinha que ser mudado para permanecer igual”
Uma
visão atual da sociedade brasileira e um exemplo:
Hoje
em dia nós temos no Brasil essa elite inserida no que eu chamo de: sociedade do dinheiro (com 3
divisões: velho, médio e novo), onde expressiva parcela desta sociedade não
tem nenhuma origem aristocrática e que infelizmente só se mede, compete e se
qualifica pelo consumo exacerbado de novidades fúteis, num paroxismo
descontrolado e exibicionista de gastar e cujo lema maior é: quanto mais caro
melhor!!!!!!!!!. O UBS, o maior banco do mundo no gerenciamento de fortunas a
partir de US$ 2 milhões quantifica em 2005 o volume de ativos no Brasil desta
sociedade do dinheiro em US$ 65 bilhões o que significa que ela detém 8,3% do
PIB brasileiro estimado em US$ 783,2 bilhões (considerando
o US$ a 2,5 reais). .Um exemplo emblemático desta assertiva é:
A
Casa de Edemar que custou R$ 142,7 milhões: O banqueiro Edemar Cid Ferreira que
apesar de tudo ainda é considerado, por muitos, um Mecenas no universo artístico
brasileiro com extraordinárias realizações, sua casa é um complexo de cinco
andares que ocupa uma área de 4.100 m2, custou R$ 142,7 milhões. Só a mesa de
mogno da sala de jantar, para 20 pessoas, consumiu US$ 390 mil (R$ 975 mil, pelo
câmbio atual). O banqueiro ainda desembolsou US$ 262,5 mil (R$ 656 mil) por uma
luminária criada pelo designer alemão Ingo Maurer para iluminar esta mesa de
mogno, a peça foi batizada de "Golden Ribbon" (Fita Dourada).
O banco de Edemar produziu um rombo de R$ 2,2 bilhões, os gastos com a
casa correspondem a 6,4% desse valor.
A promotoria deve pedir o leilão da casa e da coleção, avaliada entre
US$ 20 milhões e US$ 30 milhões.
Com os R$ 142,7 milhões que Edemar gastou na casa daria para comprar
nove -das coberturas dúplex que Athina Onassis adquiriu na Vila Nova Conceição,
na zona sul de São Paulo, com 990 m2 e 15 vagas na garagem.
Extravagância
Construída entre 2000 e 2004, a casa da rua Gália no andar térreo
tem duas galerias de arte, com pé-direito de nove metros, e uma biblioteca.
Numa das galerias cabem 250 pessoas. Os banheiros são de vidro transparente,
mas, assim que uma pessoa adentra o seu interior, uma película impede que se
veja o que se passa lá dentro.
O centro de distribuição de energia elétrica seria suficiente para
iluminar uma cidade de 5.000 habitantes. Os elevadores são pneumáticos porque
Edemar não gosta do barulho dos motores Na garagem é possível isolar o carro
do dono da casa, caso um veículo invasor consiga burlar todos os sistemas de
segurança.
Peter Marino o decorador norte-americano da casa é um dos mais famosos
arquitetos de interiores dos EUA. É dele a loja-conceito da Louis Vuitton de
Nova York e um prédio da Chanel em Tóquio. Ele recebeu R$ 8,86 milhões, valor
suficiente para comprar um apartamento de 550 m2 no mesmo edifício Chateau
Margaux em que Athina vive.
O projeto do arquiteto Ruy Ohtake foi uma pechincha: R$ 1,15 milhão, o
equivalente a 0,8% do custo total da obra.
O método de construção também teve algo de delirante. Parte do mármore
importado da França veio de avião para atender um cronograma que não foi
cumprido e a pedra ficou no depósito.
Se fosse colocada à venda pelos US$ 62,3 milhões gastos na obra e em
parte da decoração, a casa de Edemar Cid Ferreira ocuparia o quinto lugar na
lista de 2005 das casas mais caras do mundo da revista "Forbes".
A casa mais cara, fica em Windlesham, nos arredores de Londres, e custa
US$ 122,2 milhões (o equivalente a R$ 279,8 milhões). Tem 103 quartos, cinco
piscinas e sala de cinema com 50 lugares. Ela tem pelos menos dois vizinhos
ilustres: a rainha Elizabeth (o Castelo de Windsor fica nas proximidades) e o
cantor Elton John.
A segunda mais cara fica em Bridgehampton, na região mais chique do
Estado de Nova York, e custa US$ 75 milhões (US$ 171,8 milhões). O terreno
ocupa uma área de 243 mil m2, com 14 jardins e até um campo de golfe.
MARIO CESAR CARVALHO, FSP, 9/10/05
Bibliografia
pesquisada para estruturar este trabalho:
As
Barbas do Imperador, Lillian Schwarcz, São Paulo, 1996.
Titulares
do Império,
Carlos Rheingantz, Rio de Janeiro, 1960.
Ensaio
Geral, 500 Anos de Brasil, Heródoto Barbeiro, Bruna Cantele, São Paulo, 1999.
As
4 Coroas de D. Pedro I, Sérgio Correa da Costa, Paz e Terra, 1996.
Anuário
Genealógico Brasileiro, 1o Anno pgs: 85, 258 a 260 e Vol. IX (Penúltimo),
São Paulo, 1947.
A
Corte no Exílio, Jurandir Malerba, São
Paulo, 2000, pgs:
307, 219, 328, 220, 221, 222, 216, 329, 363, 297, 323, 202, 213, 212, 257, 330,
331, 335, 324, 325, 326, 234, 279, 280, 281, 298, 299, 258, 262, 16, 17, 173,
24, 311, 308, 255, 256, 259, 260, 261, 262, 263.
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